Normalmente não me atrevo a falar em política, mas ultimamente sequências de descaradas babaquices e hipocrisias no cenário político do meu país têm me revoltado. Ando indignado e sentindo-me curvado por causa de uma suposta placa presa ao meu pescoço onde inscreveram "imbecil". Desculpe-me pelas palavras graves que utilizei neste parágrafo, mas é por causa da revolta. Felizmente, recebi esta semana um texto de minha amiga Raphaella Burti, uma estudante de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo, que experimentou também um pouco de minha revolta. Com vocês, Raphaella...
Palhaços na Câmara
Nós, como cidadãos, acreditamos que fazemos nossa parte na democracia apenas votando para Presidente, Governador, Prefeito, Senador, etc.
Ao visitar a Câmara Municipal de São Paulo, como parte prática da disciplina de Direito Constitucional e assistir a uma Comissão, percebi, pelo menos naquele momento, que os vereadores mais encenavam do que discutiam. O Auditório Prestes Maia mais parecia um palco teatral.
Era uma Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa, com uma pauta sobre comércio ambulante na região de Pinheiros e a outra não me lembro, mas o que Srs. Vereadores menos discutiram foi a pauta. A primeira fala de um dos vereadores foi sobre a votação de outra pauta, que não foi discutida em Comissão, então se iniciou uma série de “pela ordem Sr. Presidente”, a mesa revoltou-se, todos queriam discutir a pauta de outra comissão que não foi discutida e, simplesmente, esqueceram-se da atual. Pareciam crianças mimadas falando: “Ah, Sr. Fulano falou mais que 20 minutos, eu também posso!”. Arrisco dizer que parecia proposital, discutiram tanto, brigaram tanto, inclusive dois Vereadores se retiraram da mesa, e falavam do Regimento Interno, que, por não ter sido respeitado, estava ignorando a democracia e reafirmando a ditadura, porém não seria o Regimento uma “herança” da ditadura?
O que foi apresentado é pior que ditadura, ao menos na ditadura é proibida participação ou qualquer questionamento do povo, mas na chamada democracia que vivemos, eles fingem que fazem e o povo finge que está bom. Está errado! Não basta elegê-los, tem de fiscalizá-los, questioná-los, PARTICIPAR de fato.
Em toda minha vida, essa foi a primeira comissão que participei, e me decepcionei muito. Gostaria de participar de todas, aliás, assistir a todas, porque participar mesmo, só os Vereadores e autoridades participam, o povo não tem esse direito.
O “engraçado” é observar que, quando na mesa, são inimigos, mas, fora dela são todos muito bem entrosados. Só pode ser para nos fazer de palhaços. A mesa da Comissão mais parece um circo, em que os palhaços da mesa fazem a graça e nós rimos, porque é isto que fiz a Comissão inteira, eu gargalhei com as falas dos Vereadores. Nada é levado a sério. Eles que nos fazem rir, mas, na verdade, os palhaços somos nós.
Talvez tenha me exaltado, entretanto, acredito que muitos concordam comigo. Essa farsa democrática é uma vergonha, pior ainda é o povo permitir que isto aconteça. Enfim, espero poder fazer algo pelo meu país como futura gestora de políticas públicas, e denunciando fatos como este, já é um começo.
Raphaella Burti
segunda-feira, 6 de junho de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Armados e amados
"Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus... No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro." (1 João 4: 7, 18 e 19)
O escuro esconderijo brilhava com os clarões das explosões. O insuportável zumbido de projéteis assustava o pobre soldado defensor de bandeira própria. Bom talvez fosse o tempo em que as armas não existiam, ou pelo menos que nossos soldado não as via. Sair daquele desconfortável bunker o mataria, e ficar convocaria as sombras da agonia para um eterno jogo de cartas. Pôquer, buraco ou truco? Não faz diferença! Jogar contra a agonia sem apostar a própria vida é perder sempre.
Em guerra, todos são amados, todos estão armados. Amados por Deus, mas defensores cada um de sua pátria. Seis bilhões de pátrias em estado belicoso. O medo estremece as pernas, força os dedos e dispara os gatilhos. O soldado agoniado luta contra o medo, contra a vida, contra Deus e contra os homens. Olhos fechados, esconderijo apertado, vida sem vida. Só o amor finda a guerra, só a guerra esconde o amor. Quisera Deus que esse soldado amasse para diminuir ao menos uma arma neste mundo!
Infelizmente, nosso soldado já fora baleado. Uma vez, quando amou, mal se desarmara e uma bala atravessou-lhe o ombro, perto do peito, centímetros do coração. Sair novamente? Arriscar de novo? Melhor perder no jogo de cartas! Que amor triste é esse?! Enquanto participa da guerra, o soldado tem certeza da possibilidade da vida. O problema de ter certeza de uma possibilidade, é que possibilidade é sempre em potência, e pode ser que nunca chegue. Certeza de possibilidades é ilusão! Para que ser traído novamente pelo amor? Para que ter certeza da morte se posso me iludir com a vida? Soldado bom soldado mantém-se em guerra e se afugenta em desagradáveis guaridas.
Em meio aos clarões, um vulto de vestido, desarmado e sem colete, passeia entre o abismo de fogo. Que linda moça! Que belos olhos! Dançante cabelo liso! Amor à primeira vista. Amor sem chance de segunda vista. Apaixonado e embebedado de amor, não teve chance de admirar aquela beleza por mais que alguns segundos. Logo angustiou-se por ver a bela mulher cair em terra. Amou, desarmou, morreu. A angústia tomou conta do coração soldado, limpou a sombra da agonia dos olhos e trouxe um fio de esperança: "Como minha amada morre? Não pode ser assim! Não posso viver sem amar! Que angústia é esta a que me bate?!". Um lampejo de eternidade, mil anos em um segundo. O angustiado move as pernas e afrouxa os braços.
Apressadamente e tomado de vida largou sua arma, abriu o colete, estufou o peito, esticou os joelhos e correu em direção à sua amada. Leve, vivo, solto! Experimentou a paz e a liberdade, deixou de lado o jogo da agonia, deixou ser movido pela angústia e, de coração transbordando, caiu com os braços sobre o corpo da moça. Fora baleado. Sangrando com dificuldade de respirar, pode fixar por uma vida inteira os olhos de seu amor. Pode se apaixonar, pode amar, pode morrer. Respirou o último fôlego da amada e, baleado, caiu também no chão. O amado que amou o outro perdeu o medo. Antes, os dois foram amados, mas, por causa da liberdade do amor, deixaram de amar e armaram-se. Medo... Mas o amor voltou! Ressuscitou no meio da guerra, brilhou os olhos e trouxe uma vida para a eternidade...
Amar a todos nos mata, leva-nos para a cruz... Mas em três dias ressuscitamos... Amar nos traz à vida eterna! Não que seja fácil, não que eu o faça, não que se assim não fizermos seremos culpados, julgados, condenados e castigados... Mas levemos aos extremos para sempre refletir sobre nossas relações e... Amemos uns aos outros....
Gratis i Kristus
O escuro esconderijo brilhava com os clarões das explosões. O insuportável zumbido de projéteis assustava o pobre soldado defensor de bandeira própria. Bom talvez fosse o tempo em que as armas não existiam, ou pelo menos que nossos soldado não as via. Sair daquele desconfortável bunker o mataria, e ficar convocaria as sombras da agonia para um eterno jogo de cartas. Pôquer, buraco ou truco? Não faz diferença! Jogar contra a agonia sem apostar a própria vida é perder sempre.
Em guerra, todos são amados, todos estão armados. Amados por Deus, mas defensores cada um de sua pátria. Seis bilhões de pátrias em estado belicoso. O medo estremece as pernas, força os dedos e dispara os gatilhos. O soldado agoniado luta contra o medo, contra a vida, contra Deus e contra os homens. Olhos fechados, esconderijo apertado, vida sem vida. Só o amor finda a guerra, só a guerra esconde o amor. Quisera Deus que esse soldado amasse para diminuir ao menos uma arma neste mundo!
Infelizmente, nosso soldado já fora baleado. Uma vez, quando amou, mal se desarmara e uma bala atravessou-lhe o ombro, perto do peito, centímetros do coração. Sair novamente? Arriscar de novo? Melhor perder no jogo de cartas! Que amor triste é esse?! Enquanto participa da guerra, o soldado tem certeza da possibilidade da vida. O problema de ter certeza de uma possibilidade, é que possibilidade é sempre em potência, e pode ser que nunca chegue. Certeza de possibilidades é ilusão! Para que ser traído novamente pelo amor? Para que ter certeza da morte se posso me iludir com a vida? Soldado bom soldado mantém-se em guerra e se afugenta em desagradáveis guaridas.
Em meio aos clarões, um vulto de vestido, desarmado e sem colete, passeia entre o abismo de fogo. Que linda moça! Que belos olhos! Dançante cabelo liso! Amor à primeira vista. Amor sem chance de segunda vista. Apaixonado e embebedado de amor, não teve chance de admirar aquela beleza por mais que alguns segundos. Logo angustiou-se por ver a bela mulher cair em terra. Amou, desarmou, morreu. A angústia tomou conta do coração soldado, limpou a sombra da agonia dos olhos e trouxe um fio de esperança: "Como minha amada morre? Não pode ser assim! Não posso viver sem amar! Que angústia é esta a que me bate?!". Um lampejo de eternidade, mil anos em um segundo. O angustiado move as pernas e afrouxa os braços.
Apressadamente e tomado de vida largou sua arma, abriu o colete, estufou o peito, esticou os joelhos e correu em direção à sua amada. Leve, vivo, solto! Experimentou a paz e a liberdade, deixou de lado o jogo da agonia, deixou ser movido pela angústia e, de coração transbordando, caiu com os braços sobre o corpo da moça. Fora baleado. Sangrando com dificuldade de respirar, pode fixar por uma vida inteira os olhos de seu amor. Pode se apaixonar, pode amar, pode morrer. Respirou o último fôlego da amada e, baleado, caiu também no chão. O amado que amou o outro perdeu o medo. Antes, os dois foram amados, mas, por causa da liberdade do amor, deixaram de amar e armaram-se. Medo... Mas o amor voltou! Ressuscitou no meio da guerra, brilhou os olhos e trouxe uma vida para a eternidade...
Amar a todos nos mata, leva-nos para a cruz... Mas em três dias ressuscitamos... Amar nos traz à vida eterna! Não que seja fácil, não que eu o faça, não que se assim não fizermos seremos culpados, julgados, condenados e castigados... Mas levemos aos extremos para sempre refletir sobre nossas relações e... Amemos uns aos outros....
Gratis i Kristus
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Discussões inúteis!
"Timóteo, meu verdadeiro filho na fé: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, o nosso Senhor. Partindo eu para a Macedônia, roguei-lhe que permanecesse em Éfeso para ordenar a certas pessoas que não mais ensinem doutrinas falsas, e que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis, que causam controvérsias em vez de promoverem a obra de Deus, que é pela fé. O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera. Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas. Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada." (1Timóteo 1: 2 - 8)
Tenho tido problemas com discussões inúteis. Inúteis não num sentido daquelas coisas que nada tem de valor mas tudo transformam com seus significados. São inúteis porque de nada vem e a nada vão. Inúteis são as respostas que não tiveram um caminho percorrido conscientemente e que também não percorrem o caminho do argumento diferente. Mestres da lei são inúteis. Eu, quando mestre da lei, sou este tipo de inútil. Uma discussão que parte de um problema e requer soluções "fast-food" (palavras quase que prontas, tradicionais ou retiradas de algum texto comum sempre lido do mesmo jeito), as quais quando divergentes são paralelas e nunca entenderão uma a outra, não é diálogo, é inutilidade! Tenho tido problema com discussões inúteis.
Antes discutia inutilmente, mas agora aprendi um novo caminho: mostrar o caminho, não o ponto de chegada. Que belo é o caminho! Pena que depois de apresentado, os outros tem a opção de tomá-lo ou não. Mais uma vez, tornei-me refém dos livres. Para que haja diálogo, eu preciso estar disposto a trilhar o caminho do outro e o outro o meu. O objetivo de um diálogo é que transbordemos do amor que procede de um coração puro, e não as intermináveis mitologias e genealogias. Sinto falta da falta de mestres da lei... Se ela é boa, que seja utilizada de maneira adequada, não em discussões inúteis! Caminhe os caminhos, descubra pontos finais, mas não prenda-se a respostas paralelas, indispostas e categóricas. Fujamos da inutilidade!
Gratis i Kristus
Tenho tido problemas com discussões inúteis. Inúteis não num sentido daquelas coisas que nada tem de valor mas tudo transformam com seus significados. São inúteis porque de nada vem e a nada vão. Inúteis são as respostas que não tiveram um caminho percorrido conscientemente e que também não percorrem o caminho do argumento diferente. Mestres da lei são inúteis. Eu, quando mestre da lei, sou este tipo de inútil. Uma discussão que parte de um problema e requer soluções "fast-food" (palavras quase que prontas, tradicionais ou retiradas de algum texto comum sempre lido do mesmo jeito), as quais quando divergentes são paralelas e nunca entenderão uma a outra, não é diálogo, é inutilidade! Tenho tido problema com discussões inúteis.
Antes discutia inutilmente, mas agora aprendi um novo caminho: mostrar o caminho, não o ponto de chegada. Que belo é o caminho! Pena que depois de apresentado, os outros tem a opção de tomá-lo ou não. Mais uma vez, tornei-me refém dos livres. Para que haja diálogo, eu preciso estar disposto a trilhar o caminho do outro e o outro o meu. O objetivo de um diálogo é que transbordemos do amor que procede de um coração puro, e não as intermináveis mitologias e genealogias. Sinto falta da falta de mestres da lei... Se ela é boa, que seja utilizada de maneira adequada, não em discussões inúteis! Caminhe os caminhos, descubra pontos finais, mas não prenda-se a respostas paralelas, indispostas e categóricas. Fujamos da inutilidade!
Gratis i Kristus
terça-feira, 3 de maio de 2011
Dia de um recepcionista de um Hospital
Dia 3 de maio de 2011, terça-feira
Mais um dia de trabalho...
Hoje como um dia qualquer levantei e fui para o trabalho. Peguei um busão lotado, ouvi Rush, Red Hot, Chambao, Ole Funk, Falcão, Zeca Pagodinho e Pavarotti. Como já sabes, gosto de diversificar meu vocabulário musical. Vi um cartaz muito interessante de um Banco holandês que tem sede nos EUA e tem grande clientela na argentina. Cheguei atrasado. Trânsito dos infernos...
Sentei em minha cadeira, ajeitei o microfone, estiquei os braços em direção ao teclado do PC e respirei fundo: "Vamos lá!". Primeiro nome a ser chamado à recepção (um Hospital vive cheio, então todos da fila já estavam nervosos): "Senhor Lars Von Füks... (um minuto de estranhamento com o nome) Senhor Lars Von Füks". Nome chique esse né?! Então ouvi um "Bom dia" grave e bem dito. Tirei os olhos do papel com o nome do paciente e me espantei à minha frente um negão 4x4 careca de barba cheia e vestido com uma bata branca. "Von Füks?" - perguntei - com estranhamento e sobrancelhas cerradas, o afrodescendente (que pelo nome não era bem afrodescendente) balançou a cabeça sem cabelos positivamente.
"Estranho não?" - pensei - "Deve ser a miscigenação... É, deve ser a miscigenação". Pois bem, você não vai acreditar, não mesmo! Foi assustador! O próximo nome: "Por favor, Senhor Abdulah Mohammad, Senhor Abdulah Mohammad"... Calmamente guardei o papel na gaveta, fechei a gaveta, levantei a cabeça e os olhos, e... ERA JAPONÊS!!! COMO ISSO??? UM JAPONÊS!!! ABDULAH MOHAMMAD?! JAPONÊS!!! "Deve ser a globalização, deve ser... Só pode!". Curioso perguntei: "O senhor é descendente de árabe?", respondeu: "Não, eu sou chinês". CHINÊS!!! O ABDULAH ERA CHINÊS!!! Meus olhos e ouvidos estão muito mal treinados! Você me entende? Compreende o que se passou?
Bom, eu compreendi. Não é a globalização e nem a miscigenação. É o preconceito!
Até próximas conversas querido diário,
João Maria de Carvalho
(Recepcionista de um Hospital)
Gratis i Kristus
Mais um dia de trabalho...
Hoje como um dia qualquer levantei e fui para o trabalho. Peguei um busão lotado, ouvi Rush, Red Hot, Chambao, Ole Funk, Falcão, Zeca Pagodinho e Pavarotti. Como já sabes, gosto de diversificar meu vocabulário musical. Vi um cartaz muito interessante de um Banco holandês que tem sede nos EUA e tem grande clientela na argentina. Cheguei atrasado. Trânsito dos infernos...
Sentei em minha cadeira, ajeitei o microfone, estiquei os braços em direção ao teclado do PC e respirei fundo: "Vamos lá!". Primeiro nome a ser chamado à recepção (um Hospital vive cheio, então todos da fila já estavam nervosos): "Senhor Lars Von Füks... (um minuto de estranhamento com o nome) Senhor Lars Von Füks". Nome chique esse né?! Então ouvi um "Bom dia" grave e bem dito. Tirei os olhos do papel com o nome do paciente e me espantei à minha frente um negão 4x4 careca de barba cheia e vestido com uma bata branca. "Von Füks?" - perguntei - com estranhamento e sobrancelhas cerradas, o afrodescendente (que pelo nome não era bem afrodescendente) balançou a cabeça sem cabelos positivamente.
"Estranho não?" - pensei - "Deve ser a miscigenação... É, deve ser a miscigenação". Pois bem, você não vai acreditar, não mesmo! Foi assustador! O próximo nome: "Por favor, Senhor Abdulah Mohammad, Senhor Abdulah Mohammad"... Calmamente guardei o papel na gaveta, fechei a gaveta, levantei a cabeça e os olhos, e... ERA JAPONÊS!!! COMO ISSO??? UM JAPONÊS!!! ABDULAH MOHAMMAD?! JAPONÊS!!! "Deve ser a globalização, deve ser... Só pode!". Curioso perguntei: "O senhor é descendente de árabe?", respondeu: "Não, eu sou chinês". CHINÊS!!! O ABDULAH ERA CHINÊS!!! Meus olhos e ouvidos estão muito mal treinados! Você me entende? Compreende o que se passou?
Bom, eu compreendi. Não é a globalização e nem a miscigenação. É o preconceito!
Até próximas conversas querido diário,
João Maria de Carvalho
(Recepcionista de um Hospital)
Gratis i Kristus
domingo, 1 de maio de 2011
Preguiçosos e Excessivos
Em um mundo de dois continentes e um só mar, existiam dois povos de uma população só. No Continente-Oeste estavam os Preguiçosos e no Continente-Leste os Excessivos. O problema de chamar um lado de Leste e outro de Oeste é que no espaço não existem pontos cardeais... Mas este é um outro problema, que ficará à cargo de algum outro texto em que eu me preste a tratar de geografia-astronômicológica. O que importa é que o povo do lado Oeste nunca ia para a outra terra porque era demasiadamente trabalhoso, assim como, por outro lado (literalmente), o povo do Leste nunca parava no Oeste, pois quando se prestava a atravessar de um lado para outro não se contentava com paradas e, excessivamente andando, voltava ao ponto de partida. Um lado sempre parado e outro andando demais.
O povo do Oeste era muito lento, não via o mundo girar. Cresceram todos juntos e amontuados; explorar terras exige que o espírito sopre todo-santo-dia, e soprar sempre requer o fôlego que a preguiça não tem: o fôlego de vida. Neste Continente ninguém morria, pois a vida não é digna de descanso, apenas os preguiçosos podem parar. A falta da vida trabalhando e pedindo descanso impedia que os seres crescessem. Quem é preguiçoso não cresce. Os preguiçosos eram pequenos e com grandiosa nobreza; não no sentido de virtude, mas de cargos e títulos mesmo. Todos eram nobres, nenhum era vivo. A preguiça não é digna de morte, pois em momento algum deixou que crescesse a vida.
Por outro lado (mais uma vez literalmente), o povo do Leste era muito rápido! Por esta razão também não via o mundo girar! Os excessivos corriam, corriam, corriam... Corriam tanto, que todo movimento parecia inércia. Explosões para lá, transformações para cá, notícias ao norte, negócios ao sul... Excessivamente exagerados! Excessivos são o oposto dos preguiçosos: espalham-se pela terra com tamanha velocidade, que acham que descobriram tudo, creem que não existem mais mistérios e que o fim do mundo encontra-se no furo de seus abdômens. Ninguém se vê deste lado do mundo. Também ninguém morre, pois quando não se percebe a vida passar, também não se vê a morte chegar. Os excessivos roubam de si mesmos as Sensações. Não perceber a vida impede que os excessivos amadureçam. Imaturos e grandiosamente informados. Todos sabiam o que se passava, mas nenhum experimentava as experiências... A excessividade não reconhece a vida, pois em momento algum permite que ela se apresente de verdade.
Excessivos e preguiçosos, dois povos de um mesmo mundo. Dois imortais, dois não-eternos. Os preguiçosos não crescem, os excessivos não amadurecem. O mundo de nenhum deles gira, a vida não vive e os opostos, mesmo sem se encontrarem, rumam para a mesma verdade: para que a vida valha a pena, não moremos em continentes, lancemo-nos ao mar...
Dedicado à Luciana Hitomi, que com poucas palavras me ensinou que "os preguiçosos nunca crescem".
Obrigado.
Gratis i Kristus
O povo do Oeste era muito lento, não via o mundo girar. Cresceram todos juntos e amontuados; explorar terras exige que o espírito sopre todo-santo-dia, e soprar sempre requer o fôlego que a preguiça não tem: o fôlego de vida. Neste Continente ninguém morria, pois a vida não é digna de descanso, apenas os preguiçosos podem parar. A falta da vida trabalhando e pedindo descanso impedia que os seres crescessem. Quem é preguiçoso não cresce. Os preguiçosos eram pequenos e com grandiosa nobreza; não no sentido de virtude, mas de cargos e títulos mesmo. Todos eram nobres, nenhum era vivo. A preguiça não é digna de morte, pois em momento algum deixou que crescesse a vida.
Por outro lado (mais uma vez literalmente), o povo do Leste era muito rápido! Por esta razão também não via o mundo girar! Os excessivos corriam, corriam, corriam... Corriam tanto, que todo movimento parecia inércia. Explosões para lá, transformações para cá, notícias ao norte, negócios ao sul... Excessivamente exagerados! Excessivos são o oposto dos preguiçosos: espalham-se pela terra com tamanha velocidade, que acham que descobriram tudo, creem que não existem mais mistérios e que o fim do mundo encontra-se no furo de seus abdômens. Ninguém se vê deste lado do mundo. Também ninguém morre, pois quando não se percebe a vida passar, também não se vê a morte chegar. Os excessivos roubam de si mesmos as Sensações. Não perceber a vida impede que os excessivos amadureçam. Imaturos e grandiosamente informados. Todos sabiam o que se passava, mas nenhum experimentava as experiências... A excessividade não reconhece a vida, pois em momento algum permite que ela se apresente de verdade.
Excessivos e preguiçosos, dois povos de um mesmo mundo. Dois imortais, dois não-eternos. Os preguiçosos não crescem, os excessivos não amadurecem. O mundo de nenhum deles gira, a vida não vive e os opostos, mesmo sem se encontrarem, rumam para a mesma verdade: para que a vida valha a pena, não moremos em continentes, lancemo-nos ao mar...
Dedicado à Luciana Hitomi, que com poucas palavras me ensinou que "os preguiçosos nunca crescem".
Obrigado.
Gratis i Kristus
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Entre mensageiros e iguais
Depois de um dia em silêncio, numa cidade aparentemente pacata, dois mensageiros entraram na casa de um Anfitrião. O dono da casa não era bem "flor que se cheire", homem dos bons, mas sabido das artes da malandragem. Recepcionou os dois portadores de uma mensagem, preparou uma comida e enquanto ajeitava os aposentos de seus filhos para que aqueles dois desconhecidos pernoitassem, ouviu alguém bater à porta.
"Quem será?" - perguntou-se o Anfitrião. Era noite quente. Os humanos daquela cidade, do lado de fora da casa, reclamavam direitos sobre a vida daqueles dois mensageiros. Onde já se viu homens desconhecidos entrarem em uma cidade desconhecida e simplesmente encaminharem-se para a casa de um morador? Onde já se viu em uma cidade má alguém trazer uma mensagem sem nem ser aprovado pelos ouvintes?
Tenho dó daqueles dois mensageiros. Não, tenho mais dó ainda daqueles cidadãos. Em si carregavam maldade. Não carregavam atos ruins, mas maldade mesmo. Sua cidade era injusta e nenhum deles discordava da injustiça civil. Eram todos iguais. Todos iguais! Todos andavam juntos, batiam na porta juntos, gritavam juntos e ficavam cegos juntos. Aquele que com eles não andar merece sofrer em suas mãos! Onde já se viu dois mensageiros não passarem pela justiça da cidade?
Os dois mensageiros que na casa do Anfitrião se resguardavam foram ameaçados. Com o que? Com abuso! Seriam abusados por aqueles homens! O problema está no ato? Não, está na maldade dos cidadãos em abusarem do diferente, dos diferentes, dos dois visitantes e do Anfitrião (que lembrando: não era bem flor que se cheire). Onde já se viu alguém trazer uma língua diferente da nossa e não sofrer em nossas mãos?
Onde já se viu alguém trazer uma mensagem que ninguém está aconstumado a ouvir? Onde já se viu estrangeiros virem para nossa cidade e não se adequarem à nossa injustiça? Onde já se viu um Cristo descer dos céus e apresentar uma mensagem que todos não querem ouvir? Onde já se viu alguém trazer uma mensagem para ninguém, ou melhor, para os ninguéns? Estamos falando de todos... Onde já se viu dois mensageiros entrarem em nossa cidade sem serem convidados e testados? Onde já se viu um Cristo destruir tudo e reconstruir em três dias?
O Cristianismo não prega a morte, mas a ressurreição. O Cristianismo não se preocupa com o pecado, mas com o cuidado com o pecador. O Cristianismo não se preocupa com atos, mas com os tesouros dos corações. Em Cristo não pode haver morte, destruição e condenação para quem erra, mas sempre a Graça da Salvação! O que me dói nesta estória não é a atitude de uns, mas a postura de todos os iguais. O que me incomoda não é o "pecado" que se expressa, é a conformidade que se esconde. O que mais assusta é o abuso de todos os homens de uma mesma cidade sobre os diferentes. Os fundamentalistas que me perdoem, mas sodomia é a maldade de abusar da minoria.
Em Cristo a prostituta entra no Reino dos Céus antes dos religiosos. Em Cristo o menor é sempre o maior. Em Cristo um Deus poderoso morre. Em Cristo uma mulher digna de ser exaltada é a senhora que oferta uma única moeda. Em Cristo o publicano ora com mais fé do que o fariseu. Em Cristo a maior Lei é amar ao próximo (independentemente de quem seja ou o que faça). Em Cristo a vida vale mais do que os livros. Em Cristo Moisés diz algo, mas Cristo diz outro. Em Cristo o pescador é discípulo e o sacerdote inimigo. Em Cristo quem precisa de saúde são os doentes. Em Cristo as mulheres tem mesmo espaço que os homens. Em Cristo o Templo não vale nada perto de um coração. Em Cristo o Samaritano odiado é quem ama de verdade. Em Cristo cumprir a Lei não é suficiente, precisa vender seus tesouros e dividi-los com os pobres.
Em Cristo o próprio Deus lava os pés de seus seguidores. Em Cristo... Em Cristo... Em Cristo...
Em Cristo não há um só que não seja pecador. Mas também não há um só pecador que não seja salvo. Em nome de Cristo "Amai-vos uns aos outros".
Texto agraciado por Ana Beatriz Paulichenco:
Obrigado por me ensinar a ler esta estória Bíblica com outros olhos. Tua inspiração foi além do romance e transcendeu o "de-sempre". Que o coração continue aberto para os sentidos e os olhos atentos para as letras...
Gratis i Kristus
"Quem será?" - perguntou-se o Anfitrião. Era noite quente. Os humanos daquela cidade, do lado de fora da casa, reclamavam direitos sobre a vida daqueles dois mensageiros. Onde já se viu homens desconhecidos entrarem em uma cidade desconhecida e simplesmente encaminharem-se para a casa de um morador? Onde já se viu em uma cidade má alguém trazer uma mensagem sem nem ser aprovado pelos ouvintes?
Tenho dó daqueles dois mensageiros. Não, tenho mais dó ainda daqueles cidadãos. Em si carregavam maldade. Não carregavam atos ruins, mas maldade mesmo. Sua cidade era injusta e nenhum deles discordava da injustiça civil. Eram todos iguais. Todos iguais! Todos andavam juntos, batiam na porta juntos, gritavam juntos e ficavam cegos juntos. Aquele que com eles não andar merece sofrer em suas mãos! Onde já se viu dois mensageiros não passarem pela justiça da cidade?
Os dois mensageiros que na casa do Anfitrião se resguardavam foram ameaçados. Com o que? Com abuso! Seriam abusados por aqueles homens! O problema está no ato? Não, está na maldade dos cidadãos em abusarem do diferente, dos diferentes, dos dois visitantes e do Anfitrião (que lembrando: não era bem flor que se cheire). Onde já se viu alguém trazer uma língua diferente da nossa e não sofrer em nossas mãos?
Onde já se viu alguém trazer uma mensagem que ninguém está aconstumado a ouvir? Onde já se viu estrangeiros virem para nossa cidade e não se adequarem à nossa injustiça? Onde já se viu um Cristo descer dos céus e apresentar uma mensagem que todos não querem ouvir? Onde já se viu alguém trazer uma mensagem para ninguém, ou melhor, para os ninguéns? Estamos falando de todos... Onde já se viu dois mensageiros entrarem em nossa cidade sem serem convidados e testados? Onde já se viu um Cristo destruir tudo e reconstruir em três dias?
O Cristianismo não prega a morte, mas a ressurreição. O Cristianismo não se preocupa com o pecado, mas com o cuidado com o pecador. O Cristianismo não se preocupa com atos, mas com os tesouros dos corações. Em Cristo não pode haver morte, destruição e condenação para quem erra, mas sempre a Graça da Salvação! O que me dói nesta estória não é a atitude de uns, mas a postura de todos os iguais. O que me incomoda não é o "pecado" que se expressa, é a conformidade que se esconde. O que mais assusta é o abuso de todos os homens de uma mesma cidade sobre os diferentes. Os fundamentalistas que me perdoem, mas sodomia é a maldade de abusar da minoria.
Em Cristo a prostituta entra no Reino dos Céus antes dos religiosos. Em Cristo o menor é sempre o maior. Em Cristo um Deus poderoso morre. Em Cristo uma mulher digna de ser exaltada é a senhora que oferta uma única moeda. Em Cristo o publicano ora com mais fé do que o fariseu. Em Cristo a maior Lei é amar ao próximo (independentemente de quem seja ou o que faça). Em Cristo a vida vale mais do que os livros. Em Cristo Moisés diz algo, mas Cristo diz outro. Em Cristo o pescador é discípulo e o sacerdote inimigo. Em Cristo quem precisa de saúde são os doentes. Em Cristo as mulheres tem mesmo espaço que os homens. Em Cristo o Templo não vale nada perto de um coração. Em Cristo o Samaritano odiado é quem ama de verdade. Em Cristo cumprir a Lei não é suficiente, precisa vender seus tesouros e dividi-los com os pobres.
Em Cristo o próprio Deus lava os pés de seus seguidores. Em Cristo... Em Cristo... Em Cristo...
Em Cristo não há um só que não seja pecador. Mas também não há um só pecador que não seja salvo. Em nome de Cristo "Amai-vos uns aos outros".
Texto agraciado por Ana Beatriz Paulichenco:
Obrigado por me ensinar a ler esta estória Bíblica com outros olhos. Tua inspiração foi além do romance e transcendeu o "de-sempre". Que o coração continue aberto para os sentidos e os olhos atentos para as letras...
Gratis i Kristus
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Jonas na barriga da Agonia
Quando eu era menino pensava como menino: achava que a estória de Jonas estava no Gênesis, muito provavelmente próximo ao dilúvio, talvez entre Noé e Moisés (que também se figurava no primeiro livro dos cinco primeiros). Sei lá se é porque nas três aventuras rola um mar, água, maldade e uma certa destruição, mas para mim eram todas próximas umas das outras. Aliás, eu nem imaginava a possibilidade de Jonas ter um livro só pra ele, e muito menos que um homem tão medroso e egoísta fosse chamado de profeta (mais tarde, para contentar meu péssimo senso de justiça, descobri que pelo menos era um profeta considerado "menor").
Em uma noite escura, daquelas que se segue depois de uma tempestade, apesar da "medrosidade" e egoísmo, o profeta fujão cala sua voz de denúncia e abre a porta de seu coração com uma chave das mais lindas já declamadas: "Em meu desespero clamei ao SENHOR". Este angustiado profeta, cegado pelo mar e à deriva da escuridão, descobre o medo que apavorava à pouco os marinheiros que com ele viajavam. Os homens lembram de Deus quando suas esperanças se esvaem.
No estômago da Agonia, uma espécie de peixe gigante que avança nos homens conhecedores de uma verdade que não vivem, o missionário, filho de Amitai, lembra do Deus que crê, da Voz que lhe chamou à sua missão, à vida, e sai da sepultura para a praia: "Aqueles que acreditam em ídolos inúteis desprezam a misericórdia. Mas eu, com um cântico de gratidão, oferecerei sacrifício a ti. O que eu prometi cumprirei totalmente. A salvação vem do SENHOR". Os homens lembram da misericórdia quando mortos, não por quererem viver, mas porque não querem morrer sem que sejam dignos da morte. Como diria Chaplin: "Há outra coisa mais inevitável que a morte; a vida".
Já na praia, confiante, tranquilo, talvez tendo alcançado o porto seguro que Agostinho procurara em sua "Vida Feliz", nosso Jonas esquece de seus passos, da Agonia, abandona a angústia e, obstinado, parte para cumprir uma missão. Não a missão da Voz que lhe chamara, a sua vida, mas para cumprir seu vazio desejo (ou desejo vazio). E a misericórdia? Para que se está vivo e longe de morrer? E Deus? Por que se não precisa de esperanças mais? Elas estão no celeiro e não se esvaem, mas seu dono não se alimenta delas. Toda dor e angústia não movem mais o homem, são esquecidas por ele. Ele não ama mais. Mas continuam no coração de Deus, o eterno amor que sempre lembra de seus filhos: "Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?".
Nas noites frias e chuvosas, em meio a tempestades, quando esfomeado e em mendigância o medo bate à porta, vem o amor para abrigá-lo, alimentá-lo, esquentá-lo, dar um quarto, afofar o travesseiro e torná-lo um hospede tão grato, mais tão grato, que pedirá para sair de casa em busca de trabalho e de recompensar o bom amo(r) Samaritano que o amara. A angústia move a vida, a não conformidade move o homem. Sabendo disso, para que esperar que o mundo se acabe para salvá-lo? Para que esperar que um homem morra para chegar ao fim de uma guerra? Porque não sofrer desde já a dor comum à todos e dela gerar a vida? Deus tanto chorou e sofreu que sobre si carregou todas as nossas dores, que angustiado venceu o Getsêmani. A angústia não é ruim se lembrarmos dela enquanto ainda é dia, se lembrarmos de que Deus sempre é misericordioso. Não esperemos pela tempestade, pela desesperança, pela Agonia ou pela morte, em sentido contrário, vivamos desde já com amor e misericórdia, desde já lembrando de Deus, desde já abrigando os arrependidos e angustiados pelos que sofrem...
Para bom entendedor o contexto basta!
Gratis i Kristus
Em uma noite escura, daquelas que se segue depois de uma tempestade, apesar da "medrosidade" e egoísmo, o profeta fujão cala sua voz de denúncia e abre a porta de seu coração com uma chave das mais lindas já declamadas: "Em meu desespero clamei ao SENHOR". Este angustiado profeta, cegado pelo mar e à deriva da escuridão, descobre o medo que apavorava à pouco os marinheiros que com ele viajavam. Os homens lembram de Deus quando suas esperanças se esvaem.
No estômago da Agonia, uma espécie de peixe gigante que avança nos homens conhecedores de uma verdade que não vivem, o missionário, filho de Amitai, lembra do Deus que crê, da Voz que lhe chamou à sua missão, à vida, e sai da sepultura para a praia: "Aqueles que acreditam em ídolos inúteis desprezam a misericórdia. Mas eu, com um cântico de gratidão, oferecerei sacrifício a ti. O que eu prometi cumprirei totalmente. A salvação vem do SENHOR". Os homens lembram da misericórdia quando mortos, não por quererem viver, mas porque não querem morrer sem que sejam dignos da morte. Como diria Chaplin: "Há outra coisa mais inevitável que a morte; a vida".
Já na praia, confiante, tranquilo, talvez tendo alcançado o porto seguro que Agostinho procurara em sua "Vida Feliz", nosso Jonas esquece de seus passos, da Agonia, abandona a angústia e, obstinado, parte para cumprir uma missão. Não a missão da Voz que lhe chamara, a sua vida, mas para cumprir seu vazio desejo (ou desejo vazio). E a misericórdia? Para que se está vivo e longe de morrer? E Deus? Por que se não precisa de esperanças mais? Elas estão no celeiro e não se esvaem, mas seu dono não se alimenta delas. Toda dor e angústia não movem mais o homem, são esquecidas por ele. Ele não ama mais. Mas continuam no coração de Deus, o eterno amor que sempre lembra de seus filhos: "Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?".
Nas noites frias e chuvosas, em meio a tempestades, quando esfomeado e em mendigância o medo bate à porta, vem o amor para abrigá-lo, alimentá-lo, esquentá-lo, dar um quarto, afofar o travesseiro e torná-lo um hospede tão grato, mais tão grato, que pedirá para sair de casa em busca de trabalho e de recompensar o bom amo(r) Samaritano que o amara. A angústia move a vida, a não conformidade move o homem. Sabendo disso, para que esperar que o mundo se acabe para salvá-lo? Para que esperar que um homem morra para chegar ao fim de uma guerra? Porque não sofrer desde já a dor comum à todos e dela gerar a vida? Deus tanto chorou e sofreu que sobre si carregou todas as nossas dores, que angustiado venceu o Getsêmani. A angústia não é ruim se lembrarmos dela enquanto ainda é dia, se lembrarmos de que Deus sempre é misericordioso. Não esperemos pela tempestade, pela desesperança, pela Agonia ou pela morte, em sentido contrário, vivamos desde já com amor e misericórdia, desde já lembrando de Deus, desde já abrigando os arrependidos e angustiados pelos que sofrem...
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