sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Maturidade

Em tempos que me achei criança, chamaram-me de maduro. Muitos dias em que sonhei ter crescido, não passei de um recém-nascido. Idade é coisa complicada; os dígitos que representam o tempo de vida, nem sempre condizem com a vida que se vive. Tem vidas que aos 40 parecem ter vivido 15, e outras que aos 20, parecem ter vivido 22 ou 25. Chamamos essa variável variante indeterminada que ultrapassa os números de "maturidade".

Como pode um homem de 40 apenas ter vivido 15? É que de seus 40 anos vividos, carrega consigo apenas 15 deles. Pode ser que tenha escolhido ter consigo aos 40 apenas os anos que ficam entre o 10 e o 11, 16 e 18, 24 e 25, 30 e 40. Carrega consigo apenas parte da vida vivida, não decidiu levar toda a bagagem, preferiu viver menos, determinou para si um limite de experiências. Podemos ter 60 anos, mas apenas termos conosco 20 deles. Enquanto que um de 20, se carrega consigo todos os anos completos, parece ter vivido o mesmo que nós, aos 60. Homens maduros, idades diferentes. Talvez maturidades diferentes...

Pode ser que a maturidade esteja ligada com os anos que carregamos conosco. Mesmo aos 20, 15 ou 54, vivemos em nós o nosso 5° ano, o 10º, o 13º e até o ano 16 - talvez isso nos torne maduros. Quando dizemos que temos uma tal idade, de fato a temos. Englobamos em nós do 0 aos "x" anos. Me entristece saber que esquecemos disso. Não lembramos durante os dias que temos 5 anos, 10 e 13; apenas decoramos nosso dígito atual. Que adianta viver 100 anos se deles apenas trago comigo 30? Melhor viver os trinta...

Ao falarmos com as crianças, lembremos que nossa maturidade carrega ou deveria carregar também as idades delas. Quando estivermos com os adolescentes, lembremos que em nós experimentamos em nossa maturidade os 13 anos também. Na frente dos jovens, não se esqueça de que eles podem ter vivido mais do que você, assim como você mais do que eles. Frente aos mais velhos, esperem para ouvir se vivem hoje a mesma idade que tu tens. No dia de homenagear os mortos, lembremo-nos dos anos vividos e tragamos para todos os dias toda a nossa maturidade.

Vida que vive intensamente é vida que vive todos os dias todas as vidas que já se foram...



Gratis i Kristus

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Causa

Por toda minha infância de 22 anos, ouvi minha mãe contar histórias de heróis que defenderam uma causa. Causos sobre amigos, personagens bíblicos, ícones históricos e a própria história de minha mãe me apresentavam causas pelas quais eu deveria lutar. Gandhi, Malcom X, Paulo Freire, Cida, Carlos Mesters, Padre Alfredinho, Dona Maura, Paulo, Madre Teresa, Espinosa, Moisés, Lutero, Gisleine, Eliel, Mandela, Sócrates, Jandira... E por aí vão os seres fantásticos que viajam pela minha imaginação infantil de estórias e aventuras sustentadas por causas. Ouvi contos de lutas, revolução no sangue, e descobri que não são as lutas que me encantam; é a paixão...

As lutas destroem, mas o amor edifica. Nada contra os conflitos, inclusive os defendo, já que sem eles não há novidade. O problema é que por parecer que as causas se demonstram nas lutas, instituímos que causa é aquilo pelo que lutamos. Minha infância é marcada pela frase "lutar por uma causa", mas sempre que vejo as lutas, as causas estão desaparecidas. A causa não vem depois que eu começo a lutar, vem antes. Por isso digo que lutamos pelos efeitos, e não pelas causas. Lutamos por melhores condições de vida, por sobrevivência, por direitos, por uma reforma nas paredes de uma faculdade, construção de uma escola ou hospital, mas esses são efeitos, são coisas que surgem depois da causa. O efeito é objeto da luta. Os efeitos são muitos, mas a causa é única. E a causa única seria objeto de quem? Daquilo que me encanta: a paixão!

Por uma causa eu não luto, eu me apaixono. Soa estranho falar de paixão; cai em nossos ouvidos como o completo abandono dos sentidos e a perda da razão. Claro, pois a paixão nos obriga a repensar nossa consciência. Apaixonar-se requer a transformação das estruturas racionais e cômodas vividas até então. A causa só é causa se for objeto da paixão. A paixão nos obriga a mudar, a refazer os pensamentos, a reorganizar o intelecto, a "metanoiar", transformar a nossa consciência. A paixão me obriga a ser um novo homem, a repensar a vida, a não saber viver sem seu objeto. Nasci de novo. A causa me obriga a viver de novo. Viver é entregar a vida. A causa me obriga a entregar a vida novamente de um jeito novo. A causa é a consciência...

Não, não nos faltam lutas; faltam paixões. Mundo apático não é um mundo sem lutas, é um mundo sem paixões. Vivemos em constantes guerras, e nenhuma delas traz consigo uma causa, todas procuram seus efeitos. Minha geração não é uma geração sem lutas, longe disso, somos os melhores soldados que já existiram. Minha geração é uma geração sem causas. Impedem que nos apaixonemos. Claro, vivemos num mundo "cheio de razão". Faltam corações que se apaixonem, faltam consciências. Ciências temos de sobra, causas estão em falta. Os exemplos que me encantam são os que entregam a vida por paixão. Os efeitos exigem que lutemos, mas as causas que nos doemos. Faltam apaixonados por causas! A causa é a consciência...

Faltam apaixonados pela consciência!


Gratis i Kristus

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Vida simples...

Convidei-me para uma festa quando li esse texto http://minorulandia.blogspot.com/2011/11/o-que-e-vida-simples_03.html?spref=tw , escrito por meu amigo Minoru Raphael, e, de intruso, resolvi escrever também...

Nome simples é o nome que designa uma única coisa. Já o nome composto designa duas coisas que estão juntas ou utiliza dois termos para designar uma única coisa. Resumindo, digamos que o simples seja "João" e o composto "João Pedro". Mas, João Pedro são duas pessoas? Não, é uma única pessoa que possui dois nomes. Dois é mais do que um, logo, deve ter algo a mais nessa pessoa. Que diremos então de Dom Pedro I, que tinha 18 nomes?! Deve ter algo muito a mais do que uma outra pessoa... Do que o João, por exemplo. Dom Pedro é um homem composto...

A começar pelo "Dom", um título de nobreza. Título é uma posse de Pedro. Posse... Pedro é possuidor de um título e de muitos nomes. Isso faz de Pedro uma pessoa simples? Não sei. Para responder, posso me perguntar: todas essas posses são de uma mesma vida? De um mesmo Pedro? Ou por vezes suas posses são de Dom, outras de Pedro e ainda outras de I? A vida simples de Pedro começa a ficar complexa...

"Bom é ter vida simples!" - diziam os românticos. O problema é que não se prestaram a explicar muito bem de que "simples" estavam falando. Os bucólicos, os doloridos de baço e os woodstocker's cantavam a simplicidade com o viver no mato, sofrer de amores e não ter nada que participasse do mundo capitalista. Vivemos no mato, sofremos de amor e muitos fogem das amarras capitalistas. Isso fez da vida uma vida simples? Não. Pode ter feito da vida uma vida rural, ou angustiante, ou pobre, ou alienada, ou... ou... Qualquer outra coisa. Se é bom ter vida simples, precisamos ver como ou quão simples a vida é, e, quando uma coisa é simples, só pode haver um meio, uma resposta, um jeito. Os simples são únicos...

De maneira extremamente arrogante e pretenciosa, venho falar da vida simples: a vida única. Vida simples é um símbolo, tem uma "única cabeça". Se enumerarmos posses, lugares, coisas, sentimentos ou qualquer tipo de ser enumerável e definível que resuma o que, onde ou com quem é uma vida simples, a vida já não é mais simples, ela é quantificável, e aquele que possuir a maior quantidade de ondes, com quem's e quandos da vida simples, tem uma vida mais simples. Como símbolo e como simples, a vida simples não pode ser quantificada ou espacializada, deve ser vivida. Eu sei, acabei de utilizar um chavão, mas hei de menospiorá-lo: a vida simples é aquela que é a mesma, que não se divide, não se separa, vive como uma única vida em qualquer tempo, com qualquer coisa e em qualquer lugar. É vida que não se mede...

A vida simples é sinbolica, tem uma única cabeça, e não diabolica, detentora de duas cabeças. A vida de Bruno que vive como Bruno e decide viver sendo Bruno independentemente das posses, dos nomes, das complexidades, dos lugares, das pessoas e dos tempos, é uma vida simples. Não, não é uma vida composta, é bem simples. O problema de viver uma vida simples não é a impossibilidade de sua existência, mas a dificuldade de vivê-la. É decidir ser quem se quer ser a cada instante, ser coerente, ter bom senso, não deixar se dividir, ter sempre a mesma cara, matar todos os dias a hipocrisia, se livrar da mentira e, definitivamente, saber que vida simples não é vida feliz, é vida simples, simplesmente.

Espero que a vida de Pedro não tenha se dividido em vida de Dom, vida de Pedro, vida de I, vida de Alcântara... e por aí vai!


Ao meu querido amigo Minoru



Gratis i Kristus

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Falta...

Talvez por hábito demais ou desejo de menos, talvez por já termos lido demais ou sabermos das novidades ao menos, roubamos de nós nossos tempos a sós. Claro, responsabilizamos o trabalho, os estudos, a internet, o trânsito, o ônibus, o cachorro, a galinha e até a necessidade de ter que cuidar do avô. Entretanto, tanto nós quanto eles sabemos que todo tempo é tempo. Tempo não é o que se marca com o relógio, mas o que se sente na alma. Perdemos tempo não porque os ponteiros correram, mas porque nos transformamos e nem vimos o tempo passar. Nossa alma experimentou tantas coisas e mal paramos para contemplá-las. O travesseiro pode ser um grande amigo ou um maldoso passa-tempo...

Se quisermos falar com Deus, já dizia Gil, temos que desamarrar o cadarço dos sapatos. Para nós, temos também que pegar o ônibus, ir para casa ou para a igreja, fazer o almoço, cumprir as lições, executar os trabalhos, terminar os serviços, sair com os amigos, namorar, assistir televisão... Quem sabe depois disso, se quisermos falar com Deus, sentamos e nos damos um tempo?! Ou melhor, damos um tempo para Deus?! Mas, quando o fazemos, não damos o tempo da alma, entregamos a Ele o tempo dos relógios, o falso tempo; tem hora para orar, tem minuto de silêncio...

Triste: Para os apressados novos não pode haver solidão, enquanto que para os atarefados velhos não há tempo para ela. Para aqueles que entenderam que Deus é em todo tempo, não há mais a quietude e a meditação. Para aqueles que viveram na dependência de momentos com Deus, não existem mais espaços na vida para esses momentos. Ninguém canta mais para marcar o dia. Ninguém mais ora para agradecer o dia...

Sinto falta de lermos o Livro juntos. Sinto falta das conversas desconversadas do dia-a-dia que falam de Deus. Agradeço meus momentos solitários com o Livro e seu Autor. Agradeço os diálogos diários e constantes que vivem todo o tempo da minha alma, que cantam suas transformações. Mas sinto falta de depois da solidão, repartir o pão que preparei no meu quarto. Sinto falta de depois de conversar por muito tempo comigo, contar para alguém o que conversei. Sinto falta dos ouvidos sedentos. Sinto falta das bocas que falam de boca cheia. Sinto falta dos dias que se preocupam com a Criação, com a criatura e com o Criador. Sinto falta dos anos que festejamos e das eras que pranteamos. Faz falta termos um tempo. Faz falta Deus ter um tempo. Faz falta vivermos nosso tempo...


Gratis i Kristus

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nada se cria, nada se perde... Que nada!

"Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." - Lavoisier

Essa é a máxima da Lei de Conservação da Energia, que faz parte da coleção das poucas coisas que aprendemos no colégio. Muito provavelmente nossos professores de Física e de Química enchiam a boca para proferir o sagrado verso de Lavoisier. Muito provavelmente nós não abrimos nossos ouvidos, mas fomos muito influenciados por essas "sábias" palavras. Coloco sábias entre as irônicas e maliciosas aspas, porque essas palavras serão o ponto de partida de algumas de minhas muitas críticas àquilo que me ensinaram quando tentaram me formar (tanto na escola quanto na religião): a não pensar.

O primeiro problema é sacar da natureza o que querem dizer com "natureza": estou incluído nela? Se sim, somente meu corpo ou minha mente também? Se minha mente também, minhas idéias e tudo o que penso já existe, já está lá e mesmo que eu pense, há de se transformar e ficar diferente? Pois bem, para que pensar então? Nada se perde, nada se cria, mas apenas se reajeita numa outra disposição. Um mundo incrivelmente estagnado e sem novidades. Minhas idéias jamais serão importantes, serão apenas transformações e resultados de transformações. Aliás, as idéias de qualquer um são uma grande perda de tempo. Aprender algo novo? Criar? Jogar fora coisas que me atrapalham? Repensar minha fé? Redirecionar meu conhecimento? Jamais! Será apenas transformação de uma mesma coisa que existe desde que o mundo é mundo, desde antes da fundação dos tempos...

E disso podemos partir para o segundo problema: a dificuldade de admirar uma criação. Uma obra de arte é apenas um tanto de tinta velha reajeitada que às vezes jamais entenderei e nunca, nunca mesmo, serei capaz de criar algo novo que seja tão novo quanto essa obra (se é que ela é nova, já que apenas uma transformação de algo). Transformação parte do princípio de que todas as coisas são parte de um "mesmo", e que esse mesmo muda de cara, mas é sempre o mesmo. Interessante, pois participamos de uma "transitoriedade monótona". Tudo muda, mas nada é novo. Desse vazio as artes se perdem, a música é desvalorizada, o velho esquecido e o novo ridicularizado. Desse vazio surgem as mais imbecis discussões fundamentais, como por exemplo, o eterno debate Evolução x Criação. Os dois se degladiam porque não querem admitir a possibilidade de uma atividade criadora: os evolucionistas enxergam a vida como uma linha que apenas cumpre o necessário e nada inventa de novo, enquanto que os criacionistas enxergam um mundo pronto que não inventa nada, mas é mantido estaticamente por Deus. Os dois esqueceram-se de dar vida à vida e a possibilidade de uma criação.

Pode ser que essa transitoriedade monótona do mesmo seja assim por não querer perder seu posto nas escolas e nas igrejas. Quer dizer, isso se quisermos pensar que as coisas podem se perder. Claro, o mesmo nunca se perde, mas e o outro? Aquilo que é sempre o mesmo, mesmo que se transformando, não desaparece. Porém, aquilo que abre a possibilidade para um outro, corre o risco de se perder ou de perder o outro. Mas o que será que esquecemos de contar para que a vida não seja eternamente um mesmo que se transforma? O que esquecemos de lembrar? O que existe que é capaz de criar e de perder? O que faz com que de uma hora para outra suma algo e surja um novo? Talvez essa resposta exija tempo...

Exatamente! O tempo! É ele o responsável pela novidade! É ele quem cria, é ele quem perde e é ele que nessa habilidade, nunca se transforma. Tempo é sempre tempo, e, com o tempo, é tudo sempre novo. Se na natureza não houvesse tempo, nada seria uma criação e nada seria uma perda, mas apenas o mesmo se reajustando. Porém, se há o tempo, tudo é sempre novo, e o que se foi jamais retornará, jamais voltará a ser como era. Nisso, o tempo não se transforma, jamais pára, jamais retrocede e é sempre o outro. A vida com o tempo ganha valor, recupera sua capacidade de criação e se preocupa consigo, pois pode perder-se a qualquer momento. Tudo torna-se breve, instantâneo, importante, fantástico e digno de ser muito aproveitado e intensamente vivido. O que penso vale e vale muito! O que pensaram vale e vale muito! Geniais são as obras de arte e suas novidades de tempos em tempos, as músicas, os velhos que perdemos, os novos que surgem, a evolução que dinamicamente some com criações e reinventa novas criações completamente inesperadas... Não somos mais o mesmo, somos outros...

Em minha formação talvez não fizesse sentido sonhar, viver os instantes, as aulas chatas de química, as missas, as reuniões de oração, a educação física, as idas ao museu, o repensar minha fé e redirecionar meu conhecimento. Mas hoje sei que sou capaz de criar, de inventar um novo. Sou capaz de perder minhas oportunidades, minhas criações, meus velhos. A vida não é uma transitoriedade monótona, é, ao contrário, uma efemeridade dinâmica. Vale a pena pensar, vale a pena inventar e vale a pena viver, pois as coisas se perdem e somos capazes de criar, não apenas transformar. Somos velhos, somos novos. Para além de mesmos, somos outros. Uma Educação não pode se esquecer de lembrar da vida.

Gratis i Kristus

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Do cárcere ao santuário

Por esses dias, conversando com uns amigos sobre práticas esportivas, ouvi um deles dizer sobre seu joelho machucado que "ele era muito problemático". Na mesma hora, uma luz brilhou bem na frente de meus olhos e minha cabeça moveu-se para trás como se tivesse levado um golpe. "Ele? Mas o joelho não é parte de você?" - perguntei. Dali em diante tenho pensado nessa outra coisa que me pertence, mas que talvez não seja eu, e se chama "corpo".

Sem dúvida essa é uma das primeiras constatações que fazemos quando tomamos consciência de nós mesmos: "tudo aquilo que não sou eu, é outro". Simples, prático, objetivo e direto. Mal nascemos e já podemos nos considerar geniais! Meu pai não sou eu, minha irmã não sou eu, minha bicicleta não sou eu e... essa coisa que vejo para fora de mim e se mexe quando mando...Qual o nome mesmo?... Hmmm... Mão! É, mão... Sou ou não sou eu? Existe algo em mim que vê o que está em mim para fora de mim. Encontramos nosso corpo e sua acompanhante: a alma.

Essa constatação estranha que fizemos com despertar da nossa consciência, nos fez inventar uma dicotomia entre alma e corpo. Pois bem, os filósofos gregos consideravam o corpo como sendo o cárcere da alma, a prisão finita de uma coisa que consegue imaginar o eterno. Porém, ao mesmo tempo, a cultura grega era apaixonada pelo cuidado com o corpo, pela sedução que esse cárcere é capaz de promover. Uma prisão deliciosa, gustativa, dádiva dos deuses! Um verdadeiro santuário...

Quando a cultura grega encontra o judaísmo, no tempo em que Roma se avizinha a Jerusalém, essas duas idéias são muito bem vindas e dão correntes ao cristianismo: o corpo é causa do pecado, é santuário de Deus. A prisão deve ser combatida, devemos nos libertar de suas amarras, porém, ao mesmo tempo, devemos preservá-la, já que é a obra divina, a Casa do Pai. A alma é garantia da eternidade, o corpo da perdição. Apesar de ser cárcere, o corpo deve ser purificado, e, apesar de ser santuário, o corpo deve ser "aprisionado". Maldita consciência é essa que divide as coisas! Cultura da alma e cultura do corpo... Santuário e prisão... Mesmo quando junto as coisas, ainda me vejo fora de mim.

As disputas entre o corpo e a alma fizeram de nós reféns da beleza e/ou da sabedoria. Quem nunca ouviu a frase: "Mulher bonita e inteligente é impossível! Ou uma coisa, ou outra"? Dei o exemplo da mulher não por machismo, mas pelo simples fato de admirar a beleza feminina muito mais do que a masculina. Admito, tenho atração por mulheres... O que não vem ao caso, pois o problema é estacionarmos nessa separação e primária. Ou vivemos no mundo cult, ou na geração saúde. Ou doutores, ou bombados. Ou salvos, ou perdidos. Ou tristes insatisfeitos, ou contentes satisfeitos... Apesar de todos compreendermos e sabermos que somos um, corpo que pensa e alma que vive, não nos libertamos dessas amarras. A prova disso é que provavelmente você está pensando agora: "mas então, qual o certo?", ou ainda: "vai dizer que o certo é unir os dois...".

Não! A proposta não é ser a favor ou contra, aprisionado ou livre, eterno ou finito, cult ou sarado! Continuamos presos nas divisões dicotômicas! Mesmo se quisermos "unir" as retas, já partimos que são retas e, além disso, continuarei me vendo para fora de mim. Caminhemos avante para expandirmos nossa consciência! As coisas não são boas ou más por si mesmas, como já dizia Spinoza, mas é a minha relação com elas que as definem como tais. O corpo não é cárcere e nem santuário, é a minha relação com ele que o faz ou um ou outro. A alma não é mais ou menos importante, é relação com ela que dita isso...

Bom, mas assim retornaríamos à nossa descoberta da infância: quem sou eu que não é o outro? Crescemos e descobrimos que podemos dividir nosso próprio corpo em muitas outras partes, inclusive em partes que não vemos. Descobrimos também que podemos dividir nossa alma em várias partes; em subconscientes, inconscientes, egos, superegos, id's, amigos imaginários, alteregos... E em todas elas, tantos nas partes da alma como nas do corpo,  podemos ser nós. Podemos inclusive olhar para um grupo de pessoas e dizermos dele que somos nós. Afinal, quem sou e quem é meu corpo? Continuo me vendo para fora de mim...

Quando olho para o Sol, o vejo muito menor do que ele é, imagino que esteja a uma distância menor do que a que ele está e acho que é ele quem gira em torno da Terra. Porém, quando descubro que ele é muito maior, está a uma distância gigantescamente maior e  parado enquanto é a Terra que gira em torno dele, continuo vendo-o pequeno, bem próximo e se movendo, mas minha relação com ele muda. Quando descubro que posso dividir-me em muitas partes, em muitos corpos e em muitas almas, continuo me vendo de dentro de um corpo, ainda percebo uma diferença, porém, minha relação com essa diferença muda. Cárcere? Santuário? Alma? Minha relação com eles muda. Em certos dias meu corpo é prisão que me faz fazer aquilo que não queria. Em outros, é um santuário magnífico onde Deus habita. Em momentos minhas relações com minha alma são de unidade, em outros de guerra e confusão. Tem dia que sou um ser uno, tem dias que sou mais que múltiplo...

Não podemos parar na primeira experiência da consciência, mas devemos avançar e descobrir os instantes de unidade e diferenças que há nas relações vividas entre corpo, alma, eu, eu mesmo e qualquer outro. Relações afetivas e cognitivas experimentadas por muitos inteiros e divididos relacionados. Os problemas que surgem no desenrolar desse pensamento são muitos, mas deixemos para a expansão de nossa consciência ver mais tarde...



Gratis i Kristus


PS: Deus não habita em santuários construídos por mãos humanas... Cuidado com as plásticas e os vícios de academia!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pedido de um novo

Destruir é muito fácil. Jogar na defensiva, marcando o adversário, é muito mais simples do que inventar uma jogada, criar um ataque ordenado. Estragar um quadro é simples, ser Van Gogh dá trabalho...

Desfazer não é trabalho das novas gerações, é uma reação traumática das mais velhas. Não tenho em mente e nem acredito que o novo seja melhor que o velho, e muito menos que o passado deve ser deixado de lado e visto como desperdício ou tranqueira pesada que não precisamos carregar. Muito pelo contrário! Sou daqueles que não despreza a tradição e muito menos vira as costas para os que me trouxeram até aqui. Porém, também não sou saudosista escravo da tradição e amante dos dogmas. O que posso dizer é que sou novo, sou presente, consciente daquilo que me fez e sonhador daquilo que farei. Apenas afirmo que desconstruir é exercício de quem já construiu, já realizou o sonho...

Acabei de vir ao mundo e já querem me dar uma tocha na mão para queimar o quadro pintado em outra era. Não fiz o quadro! Não conheci o pintor! Não tive tempo de admirar o mundo para concordar ou discordar da obra! Por favor, deixem-me viver! Se num futuro eu rejeitar minha mensagem de hoje, confiem e acreditem que eu mesmo a destruirei, porém, não por medo de suas consequências, mas para que as próximas gerações estejam protegidas de ter que tomar decisões que não as pertencem, para que elas possam por si mesmas serem inovadoras e criativas. As possibilidades estão nas mãos daqueles que ainda não vieram, portanto, devemos deixa-las abertas e infinitas como ainda são e não decidir por elas como elas devem ser.

Talvez por vício e por segurança, tentaram predizer o que eu deveria dizer. Premonições, previsões, prenominações. Escolheram meu nome, escolheram meu signo, escolheram minha religião, escolheram meu país, escolheram minhas escolas e escolheram o que nelas eu deveria aprender. Escolheram minha mensagem! Nunca devemos escolher por alguém sua própria mensagem! O problema não é o burguês e nem a religião, a escravidão está na desproteção dos indefesos, na falta de muros que cerquem os mais novos, na impossibilidade de decidirmos que mudanças podemos fazer. Já escolheram por nós o caminho que devemos trilhar, as transformações que devemos promover...

Convoco minha geração para fugir das repetições, para correr das ordens e para impedir a nós mesmos que decidamos quais sonhos os próximos devem seguir, quais planos devem aderir e quais obras devem destruir. Que nos dias de nosso vigor possamos criar nós mesmos nossas músicas, pintar por nós nossos quadros, escrever nossos textos e produzir por nós mesmos nossas mensagens! Não destruamos, não repitamos, não abandonemos: criemos!

O passado nos empurra para frente, o futuro não nos deixa voltar atrás... Precisamos que os velhos nos protejam e os novos inovem!



Gratis i Kristus