Utilizamos alguns termos sem saber necessariamente qual sua função. "Cadeira", por exemplo, é um termo que utilizamos para nos referirmos não a uma coisa específica com forma determinada, mas, a um objeto que desempenha uma certa função de "cadeira". Criamos termos não para explicar o que são as coisas, mas, para caracterizarmos um certo papel, uma certa função; generalizarmos uma relação. Poderíamos, no português informal dizer que quando utilizamos "cadeira", queremos falar da "bacia", que não é a função de recipiente em que depositamos água ou outra coisa, mas, parte do nosso quadril, da nossa "cintura" que apelidamos comicamente de "cadeira". Quer dizer, com um termo que parece tão simples - "cadeira" - já é possível fazer uma confusão, imaginemos com outros termos que cabem a relações mais abrangentes... Que confusão podemos causar, não?!
Não me adianta querer falar do termo "teologia" - que está presente no título -, sem tentar exprimir que relação eu gostaria que esse termo taxasse. Eu poderia, por exemplo, buscar a "origem" da palavra teologia no grego ou sei la em qual outra língua para justificar a relação "correta" desse termo. Porém, prefiro não encontrar a "relação correta do termo", mas, desenvolver uma generalização do que eu gostaria que compreendêssemos do termo "teologia", qual a função que desejaria que tal termo desempenhasse.
Se Teologia tiver a função de taxar a tentativa que não-divinos fazem de explicar Deus, imagino que o termo se refira a uma relação sem-sentido, uma busca que não nos cabe pois é uma busca impossível; é repetir palavras sem as relacionar com uma função, já explicar ou procurar Deus não é função de quem não é capaz de apreendê-lo. Seria como se quiséssemos construir uma torre que chegasse aos Céus (parecido com uma estória bíblica, não?!). Aliás, se Teologia for encontrar a "correta" leitura da Bíblia ou saber desvendar a "verdade" das escrituras, os termos "exegese", "filologia", "crítica literária" e "alfabetização" caberiam melhor para essa função
Não creio que Teologia seja um bom termo para essas funções apresentadas. Aliás, "creio" cabe muito bem na relação que gostaria de ter com Teologia. A pressuposição de Deus já é dependente de um afirmação de Fé, um ato de crença. Essa afirmação estaria baseada em que? Numa experiência que indivíduos tem em suas relações que consideram ser transformadora, transcendente e de confiança: numa experiência de Fé. Experiência é a relação existente entre os corpos, entre as coisas. Se temos uma experiência de Fé cristã, é porque afirmamos ter encontrado Jesus encarnado, Deus em pessoa, o corpo de Cristo. Se desenvolvemos Teologia, é à partir de uma experiência - relações entre corpos - que, confiando, afirmamos ser com Deus, nos entregamos à Fé. São experiências de Fé individuais - o que complica mais ainda definir uma função única para o termo.
Por alguma razão, entendemos que indivíduo é o que existe por trás dos olhos de um ser humano e comanda seu corpo, enquanto que comunidade são os outros seres por trás dos olhos de outros seres humanos que comandam seus corpos. Aqui, entenderemos indivíduo como a relação singular da infinidade de possibilidades de um momento único. Indivíduo não é um átomo isolado que se constrói solitário ou uma peça determinada pelo meio em que nasce, mas, é o termo que utilizamos para indicar a relação entre uma série de corpos - átomos, moléculas, pulsos elétricos, tecidos, órgãos, ar, comunidade, meio-ambiente e o que mais pudermos cercar que se relaciona - que é singular dentro dessa infinidade de possibilidades existentes nas experiências dos corpos em um momento, num instante que mal percebemos. Indivíduo é uma relação. É nessa relação que se dá a experiência de Fé, o encontro com Cristo. Se fosse utilizar o termo "Teologia", seria para designar a conversa sobre a abrangência dessas experiências de Fé individuais e suas implicações em uma comunidade.
Teologia não é a tentativa de desvendar o mistério transcendental, ou explicar as relações divinais, ou determinar quais as relações entre Deus e os homens ou Deus consigo mesmo. Teologia não pode ser esse emprego de chegar ao Céu e descobrir a "verdade". Partimos do pressuposto de que encontramos a verdade: tivemos uma experiência com Cristo, sabemos a verdade e o caminho. O que podemos analisar e tentar entender são as implicações e os desdobramentos que essa experiência de Fé causa em nossas relações. Podemos desenvolver sistemas que tentem abarcar as possibilidades - apesar de que creio que esse empreendimento seja pouco, pois as possibilidades são infinitas, logo, nenhum sistema as abarca - de uma experiência de Fé e o que ela pode causar em certos contextos. Muitos já o fizeram, temos uma longa tradição teológica nesse ponto.
Aqui encontraríamos mais uma função que imagino caber ao termo "teologia": estudar os vocabulários desenvolvidos para explicar as experiências de Fé e suas implicações - as tradições teológicas - para reinterpretá-los ou, até, abrir mão de determinados sistemas que não nos auxiliam na análise das experiências de Fé que acontecem em nosso cotidiano. A busca não é pela "correta verdade", mas, sobre as implicações de encontrarmos a Verdade - que é Cristo. Certas interpretações das Escrituras e experiências de Fé justificaram matanças, guerras, preconceitos e exclusão. Outras promoveram paz, liberdade, libertação e salvação. As implicações de fazermos ceras "afirmações de Fé" são parte da função de Teologia que quero escolher.
Enfim, nessa breve tentativa de encontrar sem muitos rodeios e minúcias de explicar a função que entendo que Teologia deveria generalizar, seria a função de Teologia taxar os cuidados que temos quanto a: conversas sobre nossas experiências de Fé individuais e suas implicações, e o estudo das implicações/consequências que as várias afirmações e explicações sistêmicas das experiências de Fé que outros indivíduos tiveram em suas/nossas relações. A base da teologia é já termos encontrado a verdade: Jesus. Agora, não é desvendarmos essa verdade, pois já a experimentamos, mas, renovar seu significado, entender e trabalhar as transformações que e esse Caminho, que o encontro com Cristo, nos propôs, nos causou, pode causar. Não estamos à procura de um "certo/errado" teológico, mas, as consequências das afirmações de Fé feitas e que fazemos sobre nossas relações com Deus, sobre o que acontece em nosso cotidiano, sobre as experiências com Cristo do dia-a-dia.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Mensagem, mercado, negócios
Não gostar do processo de "seleção natural" e reclamar dele não acaba com o processo. Se quisermos transformá-lo, desenvolvemos um vocabulário que nos auxilia a manipular melhor as bases da seleção natural e nos fazemos agentes desse sistema; adaptamos nossas ciências às técnicas genéticas, por exemplo. Se não gostamos da organização democrática, falar mal de sua história e sua atuação não ajuda a redefini-la. Teríamos que adaptar um vocabulário que nos desse maior força em nossas relações políticas e nos fazermos agentes desse sistema; projetos de lei, opções eleitorais ou até mesmo revoluções que tem início em interações pela internet, por exemplo. Do mesmo modo, perceber que a religião/religiosidade/mensagem religiosa estão inseridas em moldes do sistema capitalista e desempenham papéis semelhantes aos das empresas no "mercado" e criticar isso, não muda a situação de que esse processo existe, de que as relações tem se dado assim. Se quisermos transformações, nos tornarmos agentes desse processo, temos que desenvolver um vocabulário que nos auxilie a manipular melhor a situação, fazer melhores previsões, nos adaptarmos de maneira mais eficiente às necessidades emergentes.
Sim, ao olhar para as relações religiosas, não consigo deixar de perceber um grande sistema financeiro que expõe produtos e suas "éticas de consumo"; assim como a "conduta ética da empresa". Percebo discursos "sustentáveis", benefícios-vantagem-lucro, "títulos de capitalização", cartéis, corporações e o que mais inventarmos para um vocabulário de ciências econômicas ou para o mercado de ações, sei lá. Percebo mensagens que custam mais caro, outras mais barato, umas que oferecem certos benefícios, luxo ou os valores de vaidade como produtos "cult", underground, alternativos ou até "exclusivos". Imagino grandes investidores, algumas cooperativas, pequenos/médio empresários e uma ou outra micro-empresa-individual. Encontro também alguns acadêmicos estudiosos que compram produtos, mas, reclamam de quem os compra e vivem de recriminar o sistema apesar de saberem aproveitar as vantagens do negócio - não podemos esquecer que criticar o sistema é um mercado muito lucrativo...
Não, não concordo com esse sistema de mercado e muito menos com a manutenção dele. Muito pelo contrário, sonho com as paredes desse castelo ruindo por um terremoto causado por uma reforma mal-feita de algum engenheiro desatento a mando de um rei megalomaníaco ou mesmo de um megaempresário que sente que seu bolso é maior que o mundo. Porém, não acho que reclamar do "mercado de mensagens" ajude a derrubar o castelo. Sonhar com uma ilha onde meia dúzia de seres humanos vive em paz na base da troca e da solidariedade por toda a eternidade até que falte comida para os seis, não me parece uma boa alternativa para nos tornarmos agentes dentro desse sistema. Se existe uma coisa que aprendi consumindo Cinema foi que para derrubar a Matrix, é necessário que Neo se torne parte dela. Se aprendi alguma coisa lendo o Evangelho, foi que Jesus teve que ficar 33 anos em silêncio aprendendo do mundo como as pessoas se relacionavam, como funcionava o sistema, e, à partir de então, conversar com o mundo a língua do mundo, usar contra a religião o próprio sistema da religião, contra o Império as armas do Império.
Sim, pode parecer que minha proposta seja de continuismo e manutenção do sistema - pode parecer. Mas, isso só acontece porque estamos acostumados com vocabulários que se encaixam dentro desse sistema: ou você fala "sistemês" e se faz filho do mundo, ou aprende a falar "anti-sistemês" e se torna um "contra-corrente", um underground (que, querendo ou não, é mais um setor produtivo do próprio sistema para um mercado alternativo do próprio sistema). Se tentarmos nos livrar dos vocabulários prontos e nos esforçarmos para desenvolver um que nos auxilie na manipulação das coisas e nos torne mais eficientes para nos adaptarmos às necessidades, aprenderemos como agir no sistema, não teremos medo de aumentar as fissuras pequenas que sustentam nossa prisão. Seria como se estivéssemos dentro da prisão do castelo, no subterrâneo, junto às fundações da estrutura, com a possibilidade de fazer tremer as bases, mas, com o medo de colocarmos nossa vida em risco na esperança de que um dia o mercado nos convide para sermos participantes da sala do trono.
Não, não acho que falar mal do sistema nos torne "anti-sistêmicos", apenas ilustra o desejo que temos de estar no lugar daqueles poderosos que tem dominado o "mercado das mensagens". Se temos o louco sonho de ver o castelo ruir, deveríamos aprender a nos tornarmos agentes no mercado de ações. Porque não desenvolvemos um vocabulário que nos ajude não a olhar para o mercado de mensagens, mas, a virar de cabeça para baixo suas atuações? Se é um mercado onde consumimos aquilo que estiver à disposição, porque não aprendemos a exigir outras necessidades para as quais a oferta não dá conta? Porque não aprendemos a fazer contas de custo-benefício? Porque não aprendemos simplesmente a ignorar os produtos de má qualidade e exigir ofertas mais específicas? Já vivemos uma relação religiosa de mercado em que trocamos de comunidade assim que nossos desejos não são atendidos, a questão agora é aprender a utilizarmos dessa relação de maneira ordenada, com o fim de nos adaptarmos de modo mais eficiente para nos tornarmos agentes nesse mercado, e não consumidores espectadores. O homem que produz também tem a necessidade de consumir - o cuidado que temos que ter é que uns produzem em troca de sangue, enquanto outros sangram em troca de produtos...
Sim, Malafaia, Macedo, Santiago, Soares, Silva, Batista, Constantino, Rossi, Reikdal... são mensagens, são produtos, são consumíveis. Se eu não agradar teus ouvidos, existem outras ofertas por aí. A questão é que se nos relacionamos como acionistas, porque não abrimos rombos no mercado de ações? Porque não aprendemos a inflar e/ou desacelerar produções? Porque não aprendemos a agir como consumidores e investirmos em ações? Porque ainda alimentamos a concorrência entre empresas grandes ao invés de apostarmos nos pequenos mercados, nas produções emergentes? Porque olhamos para os poucos megaempresários de mensagens e suas altas percentagens de ações ao invés de arrecadarmos outras pequenas para fazermos frente com mercados menores, barreiras econômicas, bolhas menores que fazem tremer os sistemas gigantescos? Quando um consumidor está insatisfeito, reclama com seus amigos, faz um pacto quase que secreto de não consumir mais determinado produto - ignora-o. Porque ainda damos espaço nas mídias sociais para políticos, pastores, indústrias auto-mobilísticas ou empresários vorazes para se retratarem? No mercado de mensagens, se não nos satisfazemos com os produtos que tem se oferecido, porque não produzimos a nossa?
Não, o mercado de mensagens não é igual ao mercado comum. No mercado de mensagens, graças ao bom Deus, qualquer um pode se tornar produtor. Não nos esquecendo, claro, de que quem produz também consome, tem a necessidade de consumir. No mercado de mensagens, temos uma facilidade muito maior de nos tornarmos acionistas majoritários. Podemos inventar produtos que atendem melhor a demanda, que atuam de maneira mais eficiente dentro do próprio mercado, que podem causar uma falha monstruosa no sistema e derrubar quem estiver com "poder demais". Temos a possibilidade de rejeitar mensagens, ignorar as grandes marcas, as monstruosas empresas. Temos uma liberdade muito maior de dançar a música que nós mesmos criarmos. Conseguimos ser auto-sustentáveis por um tempo muito maior, encontrar brechas nas grandes economias, adaptarmo-nos mais rápido a novas necessidades, temos uma gama muito maior de recursos a ponto de, talvez, conseguirmos abrir mão do sistema financeiro de uma vez e jogarmos fora todo esse vocabulário econômico para falar de religião. Mas, precisamos aprender a nos tornar acionistas, a fazer das nossas ações "efetivamente ativas". Não adianta aderirmos a um discurso chamado de "crítico" se não aprendermos a manipular a língua que fundamentou esse discurso, se não aprendermos a transformar as estruturas vocabulares desse sistema, se não encontrarmos o caminho de morrer nas mãos de quem viemos resgatar e esperar os três dias para a ressurreição.
Sim, há esse mercado. Queremos destruí-lo? Encontremos as rachaduras nas fundações do castelo...
Gratis i Kristus
Sim, ao olhar para as relações religiosas, não consigo deixar de perceber um grande sistema financeiro que expõe produtos e suas "éticas de consumo"; assim como a "conduta ética da empresa". Percebo discursos "sustentáveis", benefícios-vantagem-lucro, "títulos de capitalização", cartéis, corporações e o que mais inventarmos para um vocabulário de ciências econômicas ou para o mercado de ações, sei lá. Percebo mensagens que custam mais caro, outras mais barato, umas que oferecem certos benefícios, luxo ou os valores de vaidade como produtos "cult", underground, alternativos ou até "exclusivos". Imagino grandes investidores, algumas cooperativas, pequenos/médio empresários e uma ou outra micro-empresa-individual. Encontro também alguns acadêmicos estudiosos que compram produtos, mas, reclamam de quem os compra e vivem de recriminar o sistema apesar de saberem aproveitar as vantagens do negócio - não podemos esquecer que criticar o sistema é um mercado muito lucrativo...
Não, não concordo com esse sistema de mercado e muito menos com a manutenção dele. Muito pelo contrário, sonho com as paredes desse castelo ruindo por um terremoto causado por uma reforma mal-feita de algum engenheiro desatento a mando de um rei megalomaníaco ou mesmo de um megaempresário que sente que seu bolso é maior que o mundo. Porém, não acho que reclamar do "mercado de mensagens" ajude a derrubar o castelo. Sonhar com uma ilha onde meia dúzia de seres humanos vive em paz na base da troca e da solidariedade por toda a eternidade até que falte comida para os seis, não me parece uma boa alternativa para nos tornarmos agentes dentro desse sistema. Se existe uma coisa que aprendi consumindo Cinema foi que para derrubar a Matrix, é necessário que Neo se torne parte dela. Se aprendi alguma coisa lendo o Evangelho, foi que Jesus teve que ficar 33 anos em silêncio aprendendo do mundo como as pessoas se relacionavam, como funcionava o sistema, e, à partir de então, conversar com o mundo a língua do mundo, usar contra a religião o próprio sistema da religião, contra o Império as armas do Império.
Sim, pode parecer que minha proposta seja de continuismo e manutenção do sistema - pode parecer. Mas, isso só acontece porque estamos acostumados com vocabulários que se encaixam dentro desse sistema: ou você fala "sistemês" e se faz filho do mundo, ou aprende a falar "anti-sistemês" e se torna um "contra-corrente", um underground (que, querendo ou não, é mais um setor produtivo do próprio sistema para um mercado alternativo do próprio sistema). Se tentarmos nos livrar dos vocabulários prontos e nos esforçarmos para desenvolver um que nos auxilie na manipulação das coisas e nos torne mais eficientes para nos adaptarmos às necessidades, aprenderemos como agir no sistema, não teremos medo de aumentar as fissuras pequenas que sustentam nossa prisão. Seria como se estivéssemos dentro da prisão do castelo, no subterrâneo, junto às fundações da estrutura, com a possibilidade de fazer tremer as bases, mas, com o medo de colocarmos nossa vida em risco na esperança de que um dia o mercado nos convide para sermos participantes da sala do trono.
Não, não acho que falar mal do sistema nos torne "anti-sistêmicos", apenas ilustra o desejo que temos de estar no lugar daqueles poderosos que tem dominado o "mercado das mensagens". Se temos o louco sonho de ver o castelo ruir, deveríamos aprender a nos tornarmos agentes no mercado de ações. Porque não desenvolvemos um vocabulário que nos ajude não a olhar para o mercado de mensagens, mas, a virar de cabeça para baixo suas atuações? Se é um mercado onde consumimos aquilo que estiver à disposição, porque não aprendemos a exigir outras necessidades para as quais a oferta não dá conta? Porque não aprendemos a fazer contas de custo-benefício? Porque não aprendemos simplesmente a ignorar os produtos de má qualidade e exigir ofertas mais específicas? Já vivemos uma relação religiosa de mercado em que trocamos de comunidade assim que nossos desejos não são atendidos, a questão agora é aprender a utilizarmos dessa relação de maneira ordenada, com o fim de nos adaptarmos de modo mais eficiente para nos tornarmos agentes nesse mercado, e não consumidores espectadores. O homem que produz também tem a necessidade de consumir - o cuidado que temos que ter é que uns produzem em troca de sangue, enquanto outros sangram em troca de produtos...
Sim, Malafaia, Macedo, Santiago, Soares, Silva, Batista, Constantino, Rossi, Reikdal... são mensagens, são produtos, são consumíveis. Se eu não agradar teus ouvidos, existem outras ofertas por aí. A questão é que se nos relacionamos como acionistas, porque não abrimos rombos no mercado de ações? Porque não aprendemos a inflar e/ou desacelerar produções? Porque não aprendemos a agir como consumidores e investirmos em ações? Porque ainda alimentamos a concorrência entre empresas grandes ao invés de apostarmos nos pequenos mercados, nas produções emergentes? Porque olhamos para os poucos megaempresários de mensagens e suas altas percentagens de ações ao invés de arrecadarmos outras pequenas para fazermos frente com mercados menores, barreiras econômicas, bolhas menores que fazem tremer os sistemas gigantescos? Quando um consumidor está insatisfeito, reclama com seus amigos, faz um pacto quase que secreto de não consumir mais determinado produto - ignora-o. Porque ainda damos espaço nas mídias sociais para políticos, pastores, indústrias auto-mobilísticas ou empresários vorazes para se retratarem? No mercado de mensagens, se não nos satisfazemos com os produtos que tem se oferecido, porque não produzimos a nossa?
Não, o mercado de mensagens não é igual ao mercado comum. No mercado de mensagens, graças ao bom Deus, qualquer um pode se tornar produtor. Não nos esquecendo, claro, de que quem produz também consome, tem a necessidade de consumir. No mercado de mensagens, temos uma facilidade muito maior de nos tornarmos acionistas majoritários. Podemos inventar produtos que atendem melhor a demanda, que atuam de maneira mais eficiente dentro do próprio mercado, que podem causar uma falha monstruosa no sistema e derrubar quem estiver com "poder demais". Temos a possibilidade de rejeitar mensagens, ignorar as grandes marcas, as monstruosas empresas. Temos uma liberdade muito maior de dançar a música que nós mesmos criarmos. Conseguimos ser auto-sustentáveis por um tempo muito maior, encontrar brechas nas grandes economias, adaptarmo-nos mais rápido a novas necessidades, temos uma gama muito maior de recursos a ponto de, talvez, conseguirmos abrir mão do sistema financeiro de uma vez e jogarmos fora todo esse vocabulário econômico para falar de religião. Mas, precisamos aprender a nos tornar acionistas, a fazer das nossas ações "efetivamente ativas". Não adianta aderirmos a um discurso chamado de "crítico" se não aprendermos a manipular a língua que fundamentou esse discurso, se não aprendermos a transformar as estruturas vocabulares desse sistema, se não encontrarmos o caminho de morrer nas mãos de quem viemos resgatar e esperar os três dias para a ressurreição.
Sim, há esse mercado. Queremos destruí-lo? Encontremos as rachaduras nas fundações do castelo...
Gratis i Kristus
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Somos fiéis ao tempo
Faz tempo que não escrevo (ando ocupado construindo meu castelo). Tenho lido bastante e, aproveitando esse comentário, indico alguns autores que tem me chamado atenção tanto por me encantarem quanto por despertarem em mim a necessidade de criticá-los: Richard Rorty, José Comblin, Slavoj Zizek, Friedrich Hegel e, (se parecer ridículo acho que deveria rever alguns valores...) aquele que é meu livro de Fé e de cabeceira, a Bíblia. Enquanto leio, caminho, converso, tomo café, pego trem e construo meu castelo, vivo descobrindo que "o fim está próximo". Percebi que o tempo é sempre apocalíptico e que a finalidade que entregamos para ele sustenta nossas afirmações, nossas ideias, nossas relações... Enfim, nossas crenças.
Quem tem caminhado comigo e me emprestado alguns tijolos para a construção de meu castelo sabe que, para mim - de acordo com o que creio -, nossas relações e nossa maneira de interpretar o mundo sempre parte de uma experiência de Fé; de uma crença. Usarmos a linguagem, desenvolvermos estruturas que chamamos de "mentais", depende de nossa Fé, de nossas crenças; são apostas que fazemos para suportarmos a monstruosidade de relações em que estamos imersos, que experimentamos. Emprestamos ao tempo uma crença de que ele tem um fim - um sentido, um porquê, um movimento, uma dinâmica -, cremos nisso. Não sei dizer se é isso que sustenta nossas crenças ou nossas crenças que sustentam isso, mas, independentemente da ordem, é a minha crença e a palavra que se repete em qualquer uma das possibilidades é "crença".
Seja imaginar que o tempo é cíclico, linear, progressivo, catastrófico, revolucionário, a caminho do Reino dos Céus, do Retorno ao princípio, ao auge da civilização, à perfeição intelectual humana, rumo ao Estado Comunista ou à destruição completa do mundo e da raça humana, precisamos depositar nossa confiança nalguma finalidade para o tempo. Se vamos pensar "quem são os homens", o fazemos à partir do sentido que demos para o tempo. Se vamos pensar "o que é justo", o faremos tendo nossa crença no sentido como norte. Se vamos estabelecer nossas relações, estabelecemos de acordo com o sentido que entregamos ao tempo. Tenho pensado muito nesse sentido e as implicações que resultam em nossas relações por causa das opções feitas nas crenças neles. O ponto não é deixarmos de crer, porque, quanto ao tempo, ao fim, ao sentido, apenas podemos crer. A questão é, se somos crentes, porque não abrimos mão das discussões e da necessidade de provar o que são as coisas, os homens, o justo ou como são nossas relações e nos voltamos para "o que faremos com nossas crenças"?
O problema de determinar a verdade à partir de uma crença no tempo é ter que reconhecer que não lidamos com a procura da "realidade", mas com a tentativa de encontrar e/ou construir em nossas relações nossas crenças. Nisso teríamos que deixar de lado a ideia de que temos verdades absolutas e que o mundo está certo de acordo com o que cremos, e, num outro sentido, teríamos a necessidade de nos calarmos e estarmos dispostos a reconhecer que nossos sistemas, hipóteses e afirmações de Fé desistindo de lutar por causas, mas, procurar viver efeitos, amar efeitos. Se cremos num sentido do tempo, o fazemos porque desejamos chegar em algum lugar (obter um efeito) e não explicar ou desenvolver as causas perfeitas para chegar lá. Admitir que necessitamos de Fé é crer plenamente nas dúvidas, que nada há de certo além das experiências de nossas relações onde tentamos encontrar e/ou construir nossas crenças.
Se eu fosse propor uma finalidade do tempo, um sentido, crer em algum tempo, creria no tempo da eternidade. Não vou tentar explicá-lo através de metáforas por ora. Não me colocarei na empreitada de desenvolver um sistema de crenças que traga sentido para o sentido que tenho crido. Prefiro me calar, utilizar esse termo - eternidade - e possibilitar que ele se relacione com as tuas experiências e abra um outro caminho para outras crenças que atendam as necessidades das relações em que você estiver imerso...
Somos todos fiéis...
Gratis i Kristus
Quem tem caminhado comigo e me emprestado alguns tijolos para a construção de meu castelo sabe que, para mim - de acordo com o que creio -, nossas relações e nossa maneira de interpretar o mundo sempre parte de uma experiência de Fé; de uma crença. Usarmos a linguagem, desenvolvermos estruturas que chamamos de "mentais", depende de nossa Fé, de nossas crenças; são apostas que fazemos para suportarmos a monstruosidade de relações em que estamos imersos, que experimentamos. Emprestamos ao tempo uma crença de que ele tem um fim - um sentido, um porquê, um movimento, uma dinâmica -, cremos nisso. Não sei dizer se é isso que sustenta nossas crenças ou nossas crenças que sustentam isso, mas, independentemente da ordem, é a minha crença e a palavra que se repete em qualquer uma das possibilidades é "crença".
Seja imaginar que o tempo é cíclico, linear, progressivo, catastrófico, revolucionário, a caminho do Reino dos Céus, do Retorno ao princípio, ao auge da civilização, à perfeição intelectual humana, rumo ao Estado Comunista ou à destruição completa do mundo e da raça humana, precisamos depositar nossa confiança nalguma finalidade para o tempo. Se vamos pensar "quem são os homens", o fazemos à partir do sentido que demos para o tempo. Se vamos pensar "o que é justo", o faremos tendo nossa crença no sentido como norte. Se vamos estabelecer nossas relações, estabelecemos de acordo com o sentido que entregamos ao tempo. Tenho pensado muito nesse sentido e as implicações que resultam em nossas relações por causa das opções feitas nas crenças neles. O ponto não é deixarmos de crer, porque, quanto ao tempo, ao fim, ao sentido, apenas podemos crer. A questão é, se somos crentes, porque não abrimos mão das discussões e da necessidade de provar o que são as coisas, os homens, o justo ou como são nossas relações e nos voltamos para "o que faremos com nossas crenças"?
O problema de determinar a verdade à partir de uma crença no tempo é ter que reconhecer que não lidamos com a procura da "realidade", mas com a tentativa de encontrar e/ou construir em nossas relações nossas crenças. Nisso teríamos que deixar de lado a ideia de que temos verdades absolutas e que o mundo está certo de acordo com o que cremos, e, num outro sentido, teríamos a necessidade de nos calarmos e estarmos dispostos a reconhecer que nossos sistemas, hipóteses e afirmações de Fé desistindo de lutar por causas, mas, procurar viver efeitos, amar efeitos. Se cremos num sentido do tempo, o fazemos porque desejamos chegar em algum lugar (obter um efeito) e não explicar ou desenvolver as causas perfeitas para chegar lá. Admitir que necessitamos de Fé é crer plenamente nas dúvidas, que nada há de certo além das experiências de nossas relações onde tentamos encontrar e/ou construir nossas crenças.
Se eu fosse propor uma finalidade do tempo, um sentido, crer em algum tempo, creria no tempo da eternidade. Não vou tentar explicá-lo através de metáforas por ora. Não me colocarei na empreitada de desenvolver um sistema de crenças que traga sentido para o sentido que tenho crido. Prefiro me calar, utilizar esse termo - eternidade - e possibilitar que ele se relacione com as tuas experiências e abra um outro caminho para outras crenças que atendam as necessidades das relações em que você estiver imerso...
Somos todos fiéis...
Gratis i Kristus
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Espiritualidade
Ontem, 26 de Agosto, marquei meu aniversário de número 23. Um número, assim como qualquer outro, interessante. Senti a necessidade de escrever; não sobre a minha caminhada de 23 anos, mas, sobre o que desejaria contar para meu espelho hoje, o que tem gritado alto quando deito a cabeça no travesseiro e fico em silêncio. Bem, o que tem gritado é uma sensação de mudança, de santa crise, de benditas dúvidas - Graças à Deus...
Aprendi uma vez que entramos em crise uma única vez: quando nascemos. O problema é que, depois de "entrados", nunca mais saímos dela - pelo menos enquanto estivermos vivos. Procurei entregar um nome para essa crise, tentei descobrir um som que correspondesse ao que sentimos quando nos damos conta que o ar está entrando sem pedir permissão para os pulmões que o expulsam sem medo de deixá-lo magoado. Vida seria uma boa palavra, mas, tem perdido a graça por causa do excesso de uso. Depressão não tem feito e ainda não faz parte do meu vocabulário. Na procura pela palavra perfeita, o mais próximo desse som foi a sequência de caracteres unidos que soam assim: "espiritualidade".
Palavras que terminam com o sufixo "dade" significam o jeito de ser de alguma outra palavra. "Mortalidade", por exemplo, é o jeito de ser mortal. "Habilidade", o jeito de ser hábil. Espiritualidade seria o jeito de ser espiritual. Não que eu acredite que exista "espírito", uma entidade à parte que habita algum lugar em alguém. Não, creio que "espírito" seja uma palavra linda que utilizamos para dar esperança no que podemos nos tornar, no sonho que podemos ter. Palavras lindas, como "espírito, servem para criarmos uma crise em nós mesmos, servem para nos fazer nascer, para nos empurrar para o mundo, não desistir de viver alguma coisa que não faça sentido. Jeito de ser espiritual, "espiritualidade", é o jeito de renovar a vida, restaurar as esperanças, ressuscitar o desejo por uma paixão, dar sentido para a palavra "amor".
Como um bom cristão, ouço de Jesus o que é espírito: "O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito". O vento que refaz o nascimento, o jeito de renovar algum sentido para a vida, a respiração que tenta trazer de volta a esperança; isso é exercer da espiritualidade. Porque fazemos isso? Creio que nesse momento é que entendemos um pouco do que tentamos dizer com o termo "amor"; fazemos por nada. Que diferença fará ao mundo renovar meu sentido para a vida? Que diferença fará para qualquer sistema de interpretação da realidade minha escolha? O que de melhor acontecerá no universo se uma massa qualquer de material biológico com uma organização nervosa que possibilita uma tal de "consciência" cria esperança? Nenhuma, nada. Porque fazemos? Por uma escolha. Escolha com sentido lógico-formal? Estruturado? Funcional? Não. Escolha por nada. Escolha por amor...
É nessa hora que o jeito de ser espírito faz sentido. Amor? Outra palavra igual à espírito ou espiritualidade: um som que nos coloca em crise. É tempo de crise, é tempo de espiritualidade. É tempo de exercermos nosso sopro de esperança, renovar o vento e os ares, arejar a casa fechada a muito tempo. Casa fechada junta pó e sujeira; precisamos abrir as nossas para o vento levar esse mofo embora. Esperemos que nossos irmãos ao ouvirem as janelas e as portas se abrindo, resolvam abrir as de suas casas também. Que o vento que sopra em nossa rua percorra todos os nossos corredores e salas. Espero que a crise atinja a todos nós. Espero...
Espero que alguma metáfora tenha feito sentido. Se fez, espero que tenha despertado teu jeito de ser espírito...
Dedico à todos que tem me acompanhado, mesmo que olhando de longe, em minha caminhada. É graças aos olhos, cumprimentos, sorrisos e suspiros de vocês que redescubro a beleza de assistir o nascer do Sol de dentro de um vagão de trem todos os dias pelas manhãs...
Gratis i Kristus
Aprendi uma vez que entramos em crise uma única vez: quando nascemos. O problema é que, depois de "entrados", nunca mais saímos dela - pelo menos enquanto estivermos vivos. Procurei entregar um nome para essa crise, tentei descobrir um som que correspondesse ao que sentimos quando nos damos conta que o ar está entrando sem pedir permissão para os pulmões que o expulsam sem medo de deixá-lo magoado. Vida seria uma boa palavra, mas, tem perdido a graça por causa do excesso de uso. Depressão não tem feito e ainda não faz parte do meu vocabulário. Na procura pela palavra perfeita, o mais próximo desse som foi a sequência de caracteres unidos que soam assim: "espiritualidade".
Palavras que terminam com o sufixo "dade" significam o jeito de ser de alguma outra palavra. "Mortalidade", por exemplo, é o jeito de ser mortal. "Habilidade", o jeito de ser hábil. Espiritualidade seria o jeito de ser espiritual. Não que eu acredite que exista "espírito", uma entidade à parte que habita algum lugar em alguém. Não, creio que "espírito" seja uma palavra linda que utilizamos para dar esperança no que podemos nos tornar, no sonho que podemos ter. Palavras lindas, como "espírito, servem para criarmos uma crise em nós mesmos, servem para nos fazer nascer, para nos empurrar para o mundo, não desistir de viver alguma coisa que não faça sentido. Jeito de ser espiritual, "espiritualidade", é o jeito de renovar a vida, restaurar as esperanças, ressuscitar o desejo por uma paixão, dar sentido para a palavra "amor".
Como um bom cristão, ouço de Jesus o que é espírito: "O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito". O vento que refaz o nascimento, o jeito de renovar algum sentido para a vida, a respiração que tenta trazer de volta a esperança; isso é exercer da espiritualidade. Porque fazemos isso? Creio que nesse momento é que entendemos um pouco do que tentamos dizer com o termo "amor"; fazemos por nada. Que diferença fará ao mundo renovar meu sentido para a vida? Que diferença fará para qualquer sistema de interpretação da realidade minha escolha? O que de melhor acontecerá no universo se uma massa qualquer de material biológico com uma organização nervosa que possibilita uma tal de "consciência" cria esperança? Nenhuma, nada. Porque fazemos? Por uma escolha. Escolha com sentido lógico-formal? Estruturado? Funcional? Não. Escolha por nada. Escolha por amor...
É nessa hora que o jeito de ser espírito faz sentido. Amor? Outra palavra igual à espírito ou espiritualidade: um som que nos coloca em crise. É tempo de crise, é tempo de espiritualidade. É tempo de exercermos nosso sopro de esperança, renovar o vento e os ares, arejar a casa fechada a muito tempo. Casa fechada junta pó e sujeira; precisamos abrir as nossas para o vento levar esse mofo embora. Esperemos que nossos irmãos ao ouvirem as janelas e as portas se abrindo, resolvam abrir as de suas casas também. Que o vento que sopra em nossa rua percorra todos os nossos corredores e salas. Espero que a crise atinja a todos nós. Espero...
Espero que alguma metáfora tenha feito sentido. Se fez, espero que tenha despertado teu jeito de ser espírito...
Dedico à todos que tem me acompanhado, mesmo que olhando de longe, em minha caminhada. É graças aos olhos, cumprimentos, sorrisos e suspiros de vocês que redescubro a beleza de assistir o nascer do Sol de dentro de um vagão de trem todos os dias pelas manhãs...
Gratis i Kristus
domingo, 29 de julho de 2012
Tirei as sandálias
Acho que esse é um dos textos mais curtos que já postei. Isso não significa que ele não seja importante ou profundo, muito pelo contrário. Imagino que tenha se tornado curto porque as poucas metáforas que utilizei apenas são respondidas com o silêncio.
Descobri que existem solos sagrados. Descobri que existe terreno santo. Descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Sou andarilho e quem me conhece sabe que sou apaixonado por essa metáfora (inclusive escrevi um texto chamado "Andarilho" sobre isso e coloquei o link no final desse que agora escrevo). Minha casa é onde eu estiver, meu mundo é por onde eu caminhar. Amo caminhar. Tenho desdém pelas fronteiras, não ligo para as cercas. Cerco o mundo enquanto o mundo me cerca. Ando e convido outros para que caminhem comigo.
Entretanto, existe um lugar pelo qual não passo de qualquer jeito, descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Encontrei o santo dos santos, encontrei o Paraíso. Sim, eu vi no deserto a sarça ardendo e não sendo consumida pelo fogo. Eu vi nuvem do tamanho da minha mão que anunciava chuva. Eu vi toda a Criação: encontrei o coração. Não, não o meu, encontrei gente, pessoas, indivíduos. Não me atrevo mais a entrar no coração de gente assim, de qualquer jeito! Não, coração é lugar sagrado, é sacro-santo.
Descobri que acho que as pessoas são sagradas. Descobri que entrar na vida de um não é como atravessar uma trilha. Descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Sou andarilho pelo mundo, mas morador fixo de corações. Moro na vida de gente, piso nos desertos humanos, vivo ajoelhado em lugares santos. As pessoas são sagradas, terra santa. Tire a sandália dos teus pés. Adoro caminhar, mas não passarei por uma vida sem parar, me prostrar e falar com o Deus que habita nos corações humanos.
texto "Adarilho": http://brunoreikdal.blogspot.com.br/2012/02/andarilho.html
Gratis i Kristus
Descobri que existem solos sagrados. Descobri que existe terreno santo. Descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Sou andarilho e quem me conhece sabe que sou apaixonado por essa metáfora (inclusive escrevi um texto chamado "Andarilho" sobre isso e coloquei o link no final desse que agora escrevo). Minha casa é onde eu estiver, meu mundo é por onde eu caminhar. Amo caminhar. Tenho desdém pelas fronteiras, não ligo para as cercas. Cerco o mundo enquanto o mundo me cerca. Ando e convido outros para que caminhem comigo.
Entretanto, existe um lugar pelo qual não passo de qualquer jeito, descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Encontrei o santo dos santos, encontrei o Paraíso. Sim, eu vi no deserto a sarça ardendo e não sendo consumida pelo fogo. Eu vi nuvem do tamanho da minha mão que anunciava chuva. Eu vi toda a Criação: encontrei o coração. Não, não o meu, encontrei gente, pessoas, indivíduos. Não me atrevo mais a entrar no coração de gente assim, de qualquer jeito! Não, coração é lugar sagrado, é sacro-santo.
Descobri que acho que as pessoas são sagradas. Descobri que entrar na vida de um não é como atravessar uma trilha. Descobri que preciso tirar as sandálias dos meus pés. Sou andarilho pelo mundo, mas morador fixo de corações. Moro na vida de gente, piso nos desertos humanos, vivo ajoelhado em lugares santos. As pessoas são sagradas, terra santa. Tire a sandália dos teus pés. Adoro caminhar, mas não passarei por uma vida sem parar, me prostrar e falar com o Deus que habita nos corações humanos.
texto "Adarilho": http://brunoreikdal.blogspot.com.br/2012/02/andarilho.html
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quinta-feira, 26 de julho de 2012
É tempo de nos sentarmos
Me preocupo muito quando vejo um homem se levantar e apenas estender a mão para apontar o dedo na direção do rosto dos que estão sentados. Me preocupo mais ainda quando um grupo de homens se levantam para tal. Perco o sono quando uma comunidade inteira decide tomar essa postura. Para fechar minha coleção de preocupações, me desespero quando outro grupo se levanta para rir da cara do primeiro que se levantou. Isso apenas piora quando eu me vejo pertencente de um desses grupos.
Não gosto muito de "ismos". Legalismo, fundamentalismo, liberalismo, feminismo, machismo, colonialismo, capitalismo, socialismo... Acho que apenas com "cristianismo" me dei bem, mas não por causa do "ismo", e sim do Cristo. Ismos são generalizações, categorias, multidão sem rosto, corpo e cérebro. Grupos que se unem para chacota ou para humilhação, são amantes dos ismos. Se encaixam, e tem orgulho de se encaixar, em alguma torcida desorganizada que não se senta para cear junto, mas fica de pé a rodear o mundo e procurar o primeiro justo que seja digno de sofrimento.
Fico chateado com minha religião, muitas vezes ela dá mancadas com seus fiéis. Porém, sou amante e defensor dos religiosos, dos que abraçam a Fé e, com toda simplicidade, põe o corpo no chão em silêncio para ouvir o Mestre, ao invés de se levantar e acusar os "mentirosos". A Fé não é funcionária da verdade, mas consolo de quem é oprimido. A Fé não é uma universalidade que faz todo sentido e responde corretamente as perguntas que lhe são propostas, mas um calado vento que escreve no chão as leis que os fiéis precisam ouvir para suportar a vida, aguentar as acusações.
Muita coisa não faz sentido. Provavelmente todos já ouviram falar da estória de Jesus do "quem não tem pecado que atire a primeira pedra" (João 8), mas às vezes nos escapa algumas cenas; nos preocupamos muito com as palavras e as "verdades ditas" e pouco com a Fé vivida. Nos esquecemos de quem estava de pé e quem estava no chão.
Fariseus imponentes jogaram uma prostituta mentirosa no chão. Deus se sentou perto dela. Homens de pé acusaram aquela falsa esperando capciosamente a resposta eterna que solucionaria os problemas do pecado. Deus sentado no chão escrevia na areia. Os detentores da verdade provavelmente tinham um sorriso no rosto enquanto viam aquele homem simples rabiscando qualquer coisa e uma prostituta envergonhada. Deus com seu dedo escreveu uma lei do Espírito na areia, onde o vento pode soprar e apagar o que fora verdadeiro naquele instante. Os homens de pé ouviram a lei e foram embora. Deus sentado pediu que a prostituta percebesse que o Criador estava sentado ao seu lado, no chão e não no alto. A mulher se levantou. Deus estava sentado; despreocupado com o que fora dito e na esperança dos próximos passos.
Não fez muita diferença o ismo da estória. O que transformou tudo foi o Cristo. Não fez muita diferença a lei escrita, dita ou seguida. O dedo na areia e Deus no chão sim. A verdade não se implantou no mundo por causa de uma Teologia, mas salvou uma vida colocando os pés no chão. O Espírito não sopra quando os homens se levantam, mas quando ele quer. Deus não fala quando um grupo encontra a verdade, mas quando Cristo está sentado com os oprimidos. A salvação é dom de Deus.
Gratis i Kristus
Não gosto muito de "ismos". Legalismo, fundamentalismo, liberalismo, feminismo, machismo, colonialismo, capitalismo, socialismo... Acho que apenas com "cristianismo" me dei bem, mas não por causa do "ismo", e sim do Cristo. Ismos são generalizações, categorias, multidão sem rosto, corpo e cérebro. Grupos que se unem para chacota ou para humilhação, são amantes dos ismos. Se encaixam, e tem orgulho de se encaixar, em alguma torcida desorganizada que não se senta para cear junto, mas fica de pé a rodear o mundo e procurar o primeiro justo que seja digno de sofrimento.
Fico chateado com minha religião, muitas vezes ela dá mancadas com seus fiéis. Porém, sou amante e defensor dos religiosos, dos que abraçam a Fé e, com toda simplicidade, põe o corpo no chão em silêncio para ouvir o Mestre, ao invés de se levantar e acusar os "mentirosos". A Fé não é funcionária da verdade, mas consolo de quem é oprimido. A Fé não é uma universalidade que faz todo sentido e responde corretamente as perguntas que lhe são propostas, mas um calado vento que escreve no chão as leis que os fiéis precisam ouvir para suportar a vida, aguentar as acusações.
Muita coisa não faz sentido. Provavelmente todos já ouviram falar da estória de Jesus do "quem não tem pecado que atire a primeira pedra" (João 8), mas às vezes nos escapa algumas cenas; nos preocupamos muito com as palavras e as "verdades ditas" e pouco com a Fé vivida. Nos esquecemos de quem estava de pé e quem estava no chão.
Fariseus imponentes jogaram uma prostituta mentirosa no chão. Deus se sentou perto dela. Homens de pé acusaram aquela falsa esperando capciosamente a resposta eterna que solucionaria os problemas do pecado. Deus sentado no chão escrevia na areia. Os detentores da verdade provavelmente tinham um sorriso no rosto enquanto viam aquele homem simples rabiscando qualquer coisa e uma prostituta envergonhada. Deus com seu dedo escreveu uma lei do Espírito na areia, onde o vento pode soprar e apagar o que fora verdadeiro naquele instante. Os homens de pé ouviram a lei e foram embora. Deus sentado pediu que a prostituta percebesse que o Criador estava sentado ao seu lado, no chão e não no alto. A mulher se levantou. Deus estava sentado; despreocupado com o que fora dito e na esperança dos próximos passos.
Não fez muita diferença o ismo da estória. O que transformou tudo foi o Cristo. Não fez muita diferença a lei escrita, dita ou seguida. O dedo na areia e Deus no chão sim. A verdade não se implantou no mundo por causa de uma Teologia, mas salvou uma vida colocando os pés no chão. O Espírito não sopra quando os homens se levantam, mas quando ele quer. Deus não fala quando um grupo encontra a verdade, mas quando Cristo está sentado com os oprimidos. A salvação é dom de Deus.
Gratis i Kristus
terça-feira, 24 de julho de 2012
Escolha
Faço parte da liderança de um grupo de adolescentes de uma igreja e muitas vezes conversamos, discutimos ou nos aconselhamos sobre as dúvidas, crises e dificuldades que se apresentam em nossa religiosidade. Me parece que em nossa caminhada de Ministério, o grande problema é "como comprovar minha religião". Porque defender ou praticar ou se submeter a determinada Fé. Claro, se é para nos entregarmos às palavras de um grupo, que seja um grupo de confiança, que inspire certezas. O problema é encontrar um porto seguro, uma fundação sólida.
Seria justo depositar toda minha confiança num grupo que armou suas palavras de modo que um sistema de vocabulário e lógica respondem a todos os questionamentos levantados. Seria justo me agrupar com outros que, como eu, se fidelizem a conversas que soem como verdades. Seria muito justo me sentir à vontade de me unir a uma comunidade que se constrói solidamente em uma rede de textos, doutrinas e argumentação que responda aos meus desejos e afinidades. Seria justo, claro, se tal segurança fosse possível. Se o primeiro passo é me confidenciar à uma palavra ou um sistema de conversas, o dia que o significado de uma delas mudar, todo o castelo corre risco de ruir e a crise religiosa se instaura.
Na procura pela certeza e por provas, nos matamos na caça por argumentos, estruturas lógicas, discursos, esforços léxicos e um exercício constante de ignorância. Remoldamos as frases prontas e as falas para que ainda nos sintamos seguros, apesar de experimentarmos todos os dias aquele frio na barriga insistente que cresce ao depararmo-nos com qualquer vocabulário diferente. A crise está fundada na pergunta: "como é possível que eu tenha confiado nessa mentira?" - e as respostas ou são "só pode ser, então, verdade", ou, "se é mentira, porque ainda crer nisso?". Desse modo, retornamos ao primeiro problema de "como comprovar minha religião".
A questão não é respondermos como comprovar a religião ou nos desesperarmos por termos confiado numa verdade ou numa mentira. O ponto importante é pensarmos: em quem tenho confiado. O problema não é por as palavras à prova e retirar delas as verdades e destruir as mentiras, ou encontrar o lugar onde todos falam a verdade, mas, pensar se faz sentido depositarmos nossa Fé, nossa confiança, nas palavras por elas mesmas. Não percebemos que se a verdade está num som articulado que forma palavras, aquele que soar melhor, é de confiança. Todos soam e podem comprovar suas palavras com seus próprios sons. E qual o verdadeiro? Aquele que escolhermos como um bom som.
O passo de entrega e submissão à uma religião não é fundado em suas palavras ou em sua comprovação, mas, na escolha do fiel de acordo com suas experiências de Fé. Não é por uma comprovação que nos tornamos fiéis, mas, por querermos ser fiéis, que exigimos e procuramos uma comprovação. Porém, não percebemos nisso que a fidelidade partiu de uma escolha, de um depositar da confiança, de uma experiência de Fé. A caminhada religiosa não é a procura pela verdade dita, mas pela experiência de Fé vivida. Descobrimos que o porto seguro parte de uma escolha. A fundação sólida não está no discurso dito, mas no desejo fiel de pertencer à uma comunidade e partilhar de experiências religiosas.
Não, a Fé não procura explicações para o mundo. Não, não estamos esperando por uma certeza. Não, nossas crises não podem ser por causa dos vocabulários. Se tivermos dúvidas, não é porque as frases não respondem aos problemas do mundo, mas porque minha Fé não age para saná-los. O problema é em quem depositar minha confiança. Se nos sons, me desligarei do mundo para ouvir aquilo que me agrada. Se em Deus, darei todos os passos para que seu Reino se faça presente. Não confiemos nas palavras, mas em Cristo. Não confiemos em nossos discursos, mas em pessoas.
Gratis i Kristus
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