"- Mas se os senhores não ignoram Deus, por que não falam Nele? - perguntou o Selvagem, indignado. - Porque não permitem a leitura desses livros sobre Deus?
- Pela mesma razão por que não apresentamos Otelo: eles são antigos. Tratam de Deus tal qual era a centenas de anos, não de Deus como é agora.
- Mas Deus não muda!
- Acontece que os homens mudam.
- Que diferença faz?
- Um mundo de diferenças..."
Este trecho tirei a uns meses (talvez ano) atrás. É de um livro antigo, de Huxley, "Admirável Mundo Novo". Na "cena", um homem que vivia fora da civilização "super-moderna" conversa com um dos líderes desta civilização. Nos tempos futuros descritos e imaginados por Huxley, não existem mais doenças, nem reprodução sexuada, velhice e desordem social, tudo é controlado. Ninguém se entristece (ou quer se entristecer), e em contra partida ninguém sonha (ou conhece o que é sonhar). Eu acho brilhante esta ficção em que Deus ainda existe, mas ninguém imagina sua existência. O "fim de Deus" acontece com o fim da necessidade, ou melhor, dos desejos humanos. Sem desejos das criaturas não há necessidade do Criador:
"- Então o senhor acha que Deus não existe?
- Ao contrário, penso que muito provavelmente existe... Mas ele se manifesta de modo diferente a homens diferentes. Nos tempos pré-modernos, manifestava-se como descrito nesses livros. Agora...
- Como ele se manifesta agora? - perguntou o Selvagem.
- Bem, ele se manifesta como uma ausência; como se absolutamente não existisse."
Para um bom religioso talvez essas imagens assustem, para um fiel elas encantam. De fato, se Deus se relaciona como um assistencialista que tem por responsabilidade e preocupação atender aos desejos humanos, com o fim dos desejos ocorre o fim de Deus. Se as nossas petições e orações são uma relação de troca ou de crédito, com o fim dos desejos há o fim de Deus. Se é assim que funciona a coisa, talvez por isso é que Deus não responde a todas as orações, para que sua "função" não se torne obsoleta. Talvez a ciência seja inimiga de Deus. Mas, graças a Deus, não é assim que a coisa funciona.
A necessidade de milagres e realizações de desejos aponta para uma fé fraca, uma distância de Deus. Como isso? Bem, se Deus é o Todo-Poderoso e que a tudo enche, quanto mais próximo Dele, menor deveriam ser as necessidades. Aliás, menor os desejos. Por que? Não porque Deus realiza os desejos antes de serem pedidos (já que não é nem vidente e nem gênio da lâmpada, é Deus), mas porque quanto mais próximo Dele mais perceptível é a necessidade de apenas uma coisa: Deus. Só tua graça me basta. A relação com Deus não é em troca de desejos atendidos, mas do único desejo que faz sentido, o "desejo de necessitar de Deus". Não necessitar que opere milagres, mas a necessidade de que a vida só tem significado e só gera mais vida se for em parceria com Ele. Fomos feitos "Nele, por Ele e para Ele". A minha motivação para viver é Deus, é Ele, seu amor. A graça que me basta. Agora, quem vive sou eu, somos nós. A nossa paz, nossa segurança, nosso norte, nosso caminho, nossa verdade e nossa vida é Ele, mas quem vive somos nós. O incentivar a vida, eliminar e erradicar doenças, planejar famílias, acabar com a fome, desordem social, indiferença e desigualdade é nossa vida, nossa "função". Tentar se aproximar disto é tentar se aproximar do que é o Reino de Deus, é buscar o Reino de Deus. Entretanto, para isto é necessário rever quem é Deus para nós, aliás, quem somos nós, já que Deus não muda, mas o homem sim, e isto faz um "mundo de diferenças".
Portanto, façamos um mundo diferente. Façamos homens diferentes. Transformemos a nós para nos relacionarmos com Ele. Deus não morre, Deus não some, mas o homem matou e hoje esconde quem é Deus.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Pecar é humano
Para quase todos os homens "errar é humano". Quase todos. Para os religiosos ser humano é ser errado. Interessante esta sentença, já que é a negação de sí mesma. Um homem que rejeita sua humanidade, vai entender?! Uma crise existencial adolescente em um religioso, independente de idade. Não quer aceitar o que é, almejando, ao contrário, ser outro ou até mesmo aquilo que não é, nunca será ou jamais poderia ser. Excesso de confusão. Tudo porque crê que errar é proibido, pecar é ultrajante e esta parte do ser humano irrita a Deus, ou incita sua ira. Uma percepção de ação e reação divina frente a vida de sua criação. Mais interessante ainda é que na religião a qual sempre me refiro (cristã), a "salvação" ou perdão divino não é meritório, mas baseado na Graça. Deus dá a quem dá por amor e não por "méritos ou obras".
Essa negação ou rejeição pelo humano, pelo erro, muito bem expresso naquele velho ditado, é invejar o divino, e não se relacionar com Ele. Julgar e castigar o pecado em nome de Deus é na verdade querer ser igual a Deus, tradicionalmente pecado ligado à um tal de Lúcifer (que não conheço). Exigir do homem ser perfeito é o mesmo que pedir para "as pedras falarem". O humano não é ruim, se firmar no humano é que mata. Errar faz parte do ser humano, é consequência de ser natureza criada. Ser perfeito o tornaria Deus (Criador) e não mais humano (criatura). Agora, se firmar, confiar e tentar gerar vida enraizado no homem não cria, mata. Se pecado for aquilo que atenta contra a vida, pecadores (que vez por outra geram morte) não podem por sí só querer ter vida, é necessário que sejam auxiliados por algo ou alguém que nunca pecou, no caso cristão, Cristo. O Deus encarnado que gera a vida, e vida eterna. Não peca ou não pecou.
Toda essa "filosofada" para pender e compreender uma afirmação: "pecar é humano, mas satânico perseverar nele". Kierkegaard elucida sobre isto. Chama muita atenção a idéia de que carregamos culpas e remorsos por quebrar regras institucionais, denominacionais ou doutrinárias, esperando em resposta o castigo. Pois cremos naquela idéia de que o erro é abominável, quando na verdade o incompreensível é o permanecer no erro. O pecado não seria em sí um ato, mas uma prática. Não seria um instante, mas uma continuidade. O problema é ir contra a consciência que se expande, o problema é não se arrepender, o "t'shuva" hebraico (mudança de caminho), a "metanoiete" grega (transformação de mente). O problema é insistir em pecar consciente, resistir a vida conscientemente.
Shakespeare, em Macbeth, diz: "Coisas mal começadas tornam elas mesmas fortes pelo mal". É uma síntese do pecado. Começar mal incentiva o continuar mal. A beleza de ser "anti-vida" é que a morte nos dá poder, as cócegas do ego humano. Nos empurra a fortalecer-nos em nós mesmos. A fazer o que não deveríamos, criar confiando no que somos e só, repetindo o que disse dois parágrafos atrás, isso mata. Necessitamos de uma parceria divina. O homem perfeito é incompleto. A grande sacada para a caminhada é esta, somos perfeitos ao sermos incompletos. Precisamos agora de um relacionamento com o completo que preencha e superabunde nossa finitude, nossa incompletude. "Onde habitou o pecado superabundou a graça". Não são necessários julgamentos, culpas, castigos ou rejeição da própria existência. O que é necessário é o (re)conhecimento de sí para continuar a caminhada...
Essa negação ou rejeição pelo humano, pelo erro, muito bem expresso naquele velho ditado, é invejar o divino, e não se relacionar com Ele. Julgar e castigar o pecado em nome de Deus é na verdade querer ser igual a Deus, tradicionalmente pecado ligado à um tal de Lúcifer (que não conheço). Exigir do homem ser perfeito é o mesmo que pedir para "as pedras falarem". O humano não é ruim, se firmar no humano é que mata. Errar faz parte do ser humano, é consequência de ser natureza criada. Ser perfeito o tornaria Deus (Criador) e não mais humano (criatura). Agora, se firmar, confiar e tentar gerar vida enraizado no homem não cria, mata. Se pecado for aquilo que atenta contra a vida, pecadores (que vez por outra geram morte) não podem por sí só querer ter vida, é necessário que sejam auxiliados por algo ou alguém que nunca pecou, no caso cristão, Cristo. O Deus encarnado que gera a vida, e vida eterna. Não peca ou não pecou.
Toda essa "filosofada" para pender e compreender uma afirmação: "pecar é humano, mas satânico perseverar nele". Kierkegaard elucida sobre isto. Chama muita atenção a idéia de que carregamos culpas e remorsos por quebrar regras institucionais, denominacionais ou doutrinárias, esperando em resposta o castigo. Pois cremos naquela idéia de que o erro é abominável, quando na verdade o incompreensível é o permanecer no erro. O pecado não seria em sí um ato, mas uma prática. Não seria um instante, mas uma continuidade. O problema é ir contra a consciência que se expande, o problema é não se arrepender, o "t'shuva" hebraico (mudança de caminho), a "metanoiete" grega (transformação de mente). O problema é insistir em pecar consciente, resistir a vida conscientemente.
Shakespeare, em Macbeth, diz: "Coisas mal começadas tornam elas mesmas fortes pelo mal". É uma síntese do pecado. Começar mal incentiva o continuar mal. A beleza de ser "anti-vida" é que a morte nos dá poder, as cócegas do ego humano. Nos empurra a fortalecer-nos em nós mesmos. A fazer o que não deveríamos, criar confiando no que somos e só, repetindo o que disse dois parágrafos atrás, isso mata. Necessitamos de uma parceria divina. O homem perfeito é incompleto. A grande sacada para a caminhada é esta, somos perfeitos ao sermos incompletos. Precisamos agora de um relacionamento com o completo que preencha e superabunde nossa finitude, nossa incompletude. "Onde habitou o pecado superabundou a graça". Não são necessários julgamentos, culpas, castigos ou rejeição da própria existência. O que é necessário é o (re)conhecimento de sí para continuar a caminhada...
terça-feira, 1 de junho de 2010
Paradoxando mais um pouco...
Os medos, a solidão, a pequenês e a indiferença do tempo praticamente nos obrigam a sermos dependentes. Não necessariamente de entorpecentes ou drogas, mas sempre dependentes. Nos sujeitamos ao controle ou poder de algo ou alguém, criamos amuletos, inventamos superstições, construímos um chão que não existe para garantir um tipo de segurança. Viver frente ao incerto, ao indeterminado, ao puro "azar" nos amedronta. Precisamos ser dependentes de alguma coisa que nos deixe firmes, imponentes, "poderosos". William James, filósofo pragmático inglês, diz em seu pragmatismo que ou amor ou esperança ou Deus, são a mesma coisa. Coisas inexistentes que chamamos a vida para sentirmos paz, alívio e segurança. Em suas palavras: "criamos Deus para nos sentirmos bem".
Entretanto, não creio que seja um mérito religioso este de criar dependências. Faz parte do ser humano. Orgulhosos, prepotentes, metidos e sabidões, sempre temos as respostas e as razões. Logo, na falta de uma certeza, frente ao indeterminado, incerto, precisamos criar nossas dependências. Chamemos também de ilusões. Escravizamos a nós mesmos. "Não sou nada sem você", dizemos uns para os outros. Criamos uma dependência escravizante, que ao invés do "amor ao próximo" nos tornar parte de um todo, torna o todo como nosso, nossa posse. Sem esse todo perdemos nossa certeza, nossa potência e, no fundo, nossa dependência. Assim como o "amor a Deus", que se torna uma sequência de atos religiosos, ritos, que "garantem minha boa estadia na terra". Atos religiosos vazios, que não valem nada, são apenas atos, que são desvalorizados a ponto de serem aquilo do que nossa vida depende. Ao invés do que era para ser bom gerar vida, rouba-a.
Iludimo-nos, nos escravizamos, nos infantilizamos e nos forçamos à ignorância. A consciência é uma bênção e uma maldição. Uma vez ciente da verdade, eternamente será incomodado por ela. Querer se livrar dos vícios traz uma realidade bruta: a vida. Por isso é muito mais fácil fechar os olhos para o que há e ser dependente de minhas ilusões. Ocupar os dias e os espaços com bastantes atividades e sons faz bem para afastar a indiferença do tempo e estreitar a relação com as dependências. O problema é refletir sobre a fuga dos vícios. Daí vem o paradoxo que mais tem me incomodado nos últimos tempos, a mensagem que a minha religião prega e seu grande desafio: "ensinar liberdade e independência e ao mesmo tempo responsabilidade com a vida e com o outro."
É incrível como o uso de uma mensagem de libertação, independência, gerou prisões e senzalas religiosas. Mas isso acontece na sociologia, na política, na filosofia e em qualquer outra área da expansão da consciência humana. Idéias, pesquisas, mensagens e projetos que eram para a liberdade, usados contra a independência. O Cristo que conheci ensinava às pessoas a tomarem as rédeas de suas vidas, para que caminhassem com seus próprios passos, tomassem suas decisões não baseados em leis, regras de conduta, amuletos, líderes ou cartilhas, mas por uma consciência de liberdade, consequentemente de amor. Se tem uma definição de amor que eu gosto é do gesto livre que não exige nada em troca, nem a correspondência do outro ou até mesmo o outro. Só há amor entre duas pessoas se estas forem independentes entre si, puderem decidir amar, ou seja, serem livres para quererem o outro simplesmente por si e pelo outro. Se numa relação um destes se aprisionar, já não é amor, e sim dependência. A nossa caminhada deve ser de buscar uma independência e ao mesmo tempo responsabilidade, consciência pelo outro. Precisamos gerar no outro também independência e consciência de responsabilidade.
Desprender do que aprisiona, valorizar o tempo, compreender as relações, ensinar, aprender, não criar certezas mas reconhecer as dúvidas, agir sem esperar recompensas e não iludir ou ser iludido. Se encantar pela vida, pelo que de fato ela é, abre uma bela trilha a se caminhar. Uma trilha interessante, pois não se sabe onde chega o próximo passo, não se tem idéia onde termina ou como termina, mas se sabe que é tomada consciente, concretamente. Não é uma viagem rumo a um lugar especial. Como diz Sören Kierkegaard, a vida é como se estivessemos suspensos no escuro sob um fio em um abismo, não sabemos onde dá o próximo passo ou se no próximo passo ainda haverá fio, não vemos o caminho, mas todos os dias damos um salto de fé. E o mais belo, é que fé não é ilusão, não é sonho, não é certeza, é sim confiança. Não sabemos onde dará, mas continuamos caminhando, confiando que se há uma vida a ser percorrida, que seja por inteiro, intensamente, vivida em abundância. Independentes, passeamos pela vida passo a passo. Nem parados e nem desesperados, mas apreciando e refletindo no passeio.
É um paradoxo. Ser livre e responsável pela vida. Ser independente e responsável pelo outro. Ter esperança e não ilusão. Querer saber tudo para chegar a conclusão de que não se sabe nada. Ter certeza de que temos dúvidas. Depender da vida é criar a morte. Ser independente é aprender a morrer para o que nos prende. "Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará".
Entretanto, não creio que seja um mérito religioso este de criar dependências. Faz parte do ser humano. Orgulhosos, prepotentes, metidos e sabidões, sempre temos as respostas e as razões. Logo, na falta de uma certeza, frente ao indeterminado, incerto, precisamos criar nossas dependências. Chamemos também de ilusões. Escravizamos a nós mesmos. "Não sou nada sem você", dizemos uns para os outros. Criamos uma dependência escravizante, que ao invés do "amor ao próximo" nos tornar parte de um todo, torna o todo como nosso, nossa posse. Sem esse todo perdemos nossa certeza, nossa potência e, no fundo, nossa dependência. Assim como o "amor a Deus", que se torna uma sequência de atos religiosos, ritos, que "garantem minha boa estadia na terra". Atos religiosos vazios, que não valem nada, são apenas atos, que são desvalorizados a ponto de serem aquilo do que nossa vida depende. Ao invés do que era para ser bom gerar vida, rouba-a.
Iludimo-nos, nos escravizamos, nos infantilizamos e nos forçamos à ignorância. A consciência é uma bênção e uma maldição. Uma vez ciente da verdade, eternamente será incomodado por ela. Querer se livrar dos vícios traz uma realidade bruta: a vida. Por isso é muito mais fácil fechar os olhos para o que há e ser dependente de minhas ilusões. Ocupar os dias e os espaços com bastantes atividades e sons faz bem para afastar a indiferença do tempo e estreitar a relação com as dependências. O problema é refletir sobre a fuga dos vícios. Daí vem o paradoxo que mais tem me incomodado nos últimos tempos, a mensagem que a minha religião prega e seu grande desafio: "ensinar liberdade e independência e ao mesmo tempo responsabilidade com a vida e com o outro."
É incrível como o uso de uma mensagem de libertação, independência, gerou prisões e senzalas religiosas. Mas isso acontece na sociologia, na política, na filosofia e em qualquer outra área da expansão da consciência humana. Idéias, pesquisas, mensagens e projetos que eram para a liberdade, usados contra a independência. O Cristo que conheci ensinava às pessoas a tomarem as rédeas de suas vidas, para que caminhassem com seus próprios passos, tomassem suas decisões não baseados em leis, regras de conduta, amuletos, líderes ou cartilhas, mas por uma consciência de liberdade, consequentemente de amor. Se tem uma definição de amor que eu gosto é do gesto livre que não exige nada em troca, nem a correspondência do outro ou até mesmo o outro. Só há amor entre duas pessoas se estas forem independentes entre si, puderem decidir amar, ou seja, serem livres para quererem o outro simplesmente por si e pelo outro. Se numa relação um destes se aprisionar, já não é amor, e sim dependência. A nossa caminhada deve ser de buscar uma independência e ao mesmo tempo responsabilidade, consciência pelo outro. Precisamos gerar no outro também independência e consciência de responsabilidade.
Desprender do que aprisiona, valorizar o tempo, compreender as relações, ensinar, aprender, não criar certezas mas reconhecer as dúvidas, agir sem esperar recompensas e não iludir ou ser iludido. Se encantar pela vida, pelo que de fato ela é, abre uma bela trilha a se caminhar. Uma trilha interessante, pois não se sabe onde chega o próximo passo, não se tem idéia onde termina ou como termina, mas se sabe que é tomada consciente, concretamente. Não é uma viagem rumo a um lugar especial. Como diz Sören Kierkegaard, a vida é como se estivessemos suspensos no escuro sob um fio em um abismo, não sabemos onde dá o próximo passo ou se no próximo passo ainda haverá fio, não vemos o caminho, mas todos os dias damos um salto de fé. E o mais belo, é que fé não é ilusão, não é sonho, não é certeza, é sim confiança. Não sabemos onde dará, mas continuamos caminhando, confiando que se há uma vida a ser percorrida, que seja por inteiro, intensamente, vivida em abundância. Independentes, passeamos pela vida passo a passo. Nem parados e nem desesperados, mas apreciando e refletindo no passeio.
É um paradoxo. Ser livre e responsável pela vida. Ser independente e responsável pelo outro. Ter esperança e não ilusão. Querer saber tudo para chegar a conclusão de que não se sabe nada. Ter certeza de que temos dúvidas. Depender da vida é criar a morte. Ser independente é aprender a morrer para o que nos prende. "Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará".
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Paradoxando
A vida que a vida nos reserva é sempre paradoxal. Para que haja vida é necessário que exista a morte. Para ver o que é bem é preciso enxergar o mal. Bom e ruim. Doce e amargo. Dor e alegria.
A maior virtude e a maior desgraça do homem é a sua necessidade de se relacionar.
A maior virtude e a maior desgraça do homem é a sua necessidade de se relacionar.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Do cão eu sou dono
Ficar sozinho e em silêncio é, num primeiro momento, assustador. Silenciar tudo para ouvir-se é muito pior. Esvaziar a mente, congelar os movimentos, deixar a alma livre para se expressar como quiser é o próprio desespero. Pois entramos em contato com aquilo que mantínhamos preso para não espantar os outros. Ouvimos os latidos daquilo que somos e não queríamos ser, os uivos do que tentávamos segurar na coleira, esconder na casinha ao fundo do quintal, para não pular a cerca do coração e invadir as casas vizinhas.
Tenho um companheiro de caminhada que admiro muito e é pastor, que algumas vezes ao pregar, citava uma música de uma banda de rock brasileira (a qual não lembro o nome) que dizia em seu contexto que apenas somos nós mesmos quando estamos sozinhos nos nossos quartos, quando ninguém nos vê. Isso é o que nos assusta, descobrimos quem somos, como é o cão que alimentamos no fundo do nosso quintal. Esse mesmo pastor,conta uma história de um índio que dizia que dentro dele existiam dois cães, um bom e um mal. Todos os dias estes cães brigavam, e vencia aquele que fora melhor alimentado. Este é o problema de ficar em silêncio, ouvimos o rosnar dos cães.
Em alguns textos do blog, dissertei ou expressei meus pensamentos sobre o "mal", "demônios", "Diabo" e afins. Neste, pretendo continuar a linha de pensamento que guiou aqueles. Assistindo um filme uma vez, ouvi um diálogo que me abriu os olhos:
"Você não acredita nos homens?", "Sim, nos homens eu acredito. Só não confio no demônio que existe dentro deles". Se existe algo que me assusta, é o Diabo. Mas não aquele chifrudo, vermelho, com tridente e cara de mal, e sim aquele que se parece muito comigo, aliás, que existe dentro de mim. Aquele do qual sou dono e alimento todos os dias. Se existe alguém que precisa ser "amarrado", esse alguém sou eu. Se existe alguém que precisa ser "expulso", esse alguém sou eu. Não o "eu" inteiro, mas aquele eu que luta comigo, aquele eu que quer a mim e não ao outro. Aquele eu egoísta, que mente para o seu bem, que vive para seu nome.
Lutero "lutava com o Diabo" durante as noites. Dizia-se tentado e perseguido por ele, por isso as noites quando o via, lutava e "vivia em pé de guerra". Lutava consigo mesmo. Era tentado pelo cão que ladrava alto querendo ser solto da coleira e fugir do quintal. E nesse caso, esse cão ladra e morde. Temos um chamado cristão para aprendermos a lidar com esse "eu", com esse cão que existe dentro de cada um. Aprendermos a morrer para nós mesmos, seguir os passos de um Cristo que esvaziou-se de si, viver numa única Lei, o Amor, pensar no outro, ser o outro, sentir a dor do outro e compreender que a vida ganha não é baseada no meu egoísmo mentiroso, no meu Pai da Mentira que me tenta em meu deserto, mas sim aquela que é dada pelo outro, testemunho para o outro, mártir para o outro. Menos de mim e mais de Deus, mais do outro. Hoje não sou mais eu, mas Cristo vive em mim.
Precisamos aprender a sermos livres! A não ouvir mais os latidos e os uivos deste cão insaciável quando ficarmos só e em silêncio, quando nos retirarmos para nossos desertos. Precisamos compreender que para liberdade fomos libertos, para tomarmos nossas atitudes de maneira independente, consciente, humana e não canina. Sermos homens e mulheres humanos, e não apenas animais que vivem influenciados por ladros, uivos e instintos. Sermos conscientes, livres, maduros, capazes de dar os próprios passos e trilhar a carreira que é proposta. Sem medo de nos apresentarmos por inteiro, sermos íntegros, abrirmos nossas casas e mostramos até o nosso quintal.
O meu maior medo não deve ser um terceiro, não deve ser um adversário, mas o meu eu, o meu cão, o meu Diabo. Para onde fugirei de Deus? Seja onde for sempre estarei em suas vistas, e aliás, frente a Deus sempre estou nu, desprotegido, inteiro. Não adianta ocupar a vida para não perceber o silêncio e o aquilo que somos, pois uma hora chega os dias de deserto e os latidos aumentam. A coleira não é forte o suficiente para segurar para todo sempre. Mas preciso aprender a guardar a Palavra em meu coração, preciso aprender a me entregar por inteiro, preciso aprender a me transformar todos os dias, a morrer todos os dias, para de glória em glória ser semelhante a Cristo.
A minha caminhada deve ser menos de mim e mais do outro. Deve ser o amar ao próximo como a mim mesmo. Não fugir de mim, não esconder o que sou, mas entrar em contato com isto, ver, ouvir e reconhecer meus cães, para ser transformado, para aniquilar a mim mesmo, esvaziar este meu eu, e deixar que Cristo viva em mim. Do cão eu sou dono, e preciso decidir se quero no dia mal, no silêncio, no deserto, na noite, ouvir uivos e latidos, ou descansar Nele, entregando meus medos e ansiedades em Suas mãos, trabalhando com parceria e cumplicidade, reconhecendo a necessidade de mudança, silenciando este cão, e ainda que ande pelo Vale da Sombra da Morte, não temerei mal algum, ainda que tudo se cale e eu veja quem sou, não temerei mal algum, ainda que tudo aconteça não temerei mal algum, pois Tu estás comigo. Do cão eu sou dono. Agora, quero ouvi-lo e silenciá-lo? Ou quero escondê-lo e esperar que solte-se da coleira?
Tenho um companheiro de caminhada que admiro muito e é pastor, que algumas vezes ao pregar, citava uma música de uma banda de rock brasileira (a qual não lembro o nome) que dizia em seu contexto que apenas somos nós mesmos quando estamos sozinhos nos nossos quartos, quando ninguém nos vê. Isso é o que nos assusta, descobrimos quem somos, como é o cão que alimentamos no fundo do nosso quintal. Esse mesmo pastor,conta uma história de um índio que dizia que dentro dele existiam dois cães, um bom e um mal. Todos os dias estes cães brigavam, e vencia aquele que fora melhor alimentado. Este é o problema de ficar em silêncio, ouvimos o rosnar dos cães.
Em alguns textos do blog, dissertei ou expressei meus pensamentos sobre o "mal", "demônios", "Diabo" e afins. Neste, pretendo continuar a linha de pensamento que guiou aqueles. Assistindo um filme uma vez, ouvi um diálogo que me abriu os olhos:
"Você não acredita nos homens?", "Sim, nos homens eu acredito. Só não confio no demônio que existe dentro deles". Se existe algo que me assusta, é o Diabo. Mas não aquele chifrudo, vermelho, com tridente e cara de mal, e sim aquele que se parece muito comigo, aliás, que existe dentro de mim. Aquele do qual sou dono e alimento todos os dias. Se existe alguém que precisa ser "amarrado", esse alguém sou eu. Se existe alguém que precisa ser "expulso", esse alguém sou eu. Não o "eu" inteiro, mas aquele eu que luta comigo, aquele eu que quer a mim e não ao outro. Aquele eu egoísta, que mente para o seu bem, que vive para seu nome.
Lutero "lutava com o Diabo" durante as noites. Dizia-se tentado e perseguido por ele, por isso as noites quando o via, lutava e "vivia em pé de guerra". Lutava consigo mesmo. Era tentado pelo cão que ladrava alto querendo ser solto da coleira e fugir do quintal. E nesse caso, esse cão ladra e morde. Temos um chamado cristão para aprendermos a lidar com esse "eu", com esse cão que existe dentro de cada um. Aprendermos a morrer para nós mesmos, seguir os passos de um Cristo que esvaziou-se de si, viver numa única Lei, o Amor, pensar no outro, ser o outro, sentir a dor do outro e compreender que a vida ganha não é baseada no meu egoísmo mentiroso, no meu Pai da Mentira que me tenta em meu deserto, mas sim aquela que é dada pelo outro, testemunho para o outro, mártir para o outro. Menos de mim e mais de Deus, mais do outro. Hoje não sou mais eu, mas Cristo vive em mim.
Precisamos aprender a sermos livres! A não ouvir mais os latidos e os uivos deste cão insaciável quando ficarmos só e em silêncio, quando nos retirarmos para nossos desertos. Precisamos compreender que para liberdade fomos libertos, para tomarmos nossas atitudes de maneira independente, consciente, humana e não canina. Sermos homens e mulheres humanos, e não apenas animais que vivem influenciados por ladros, uivos e instintos. Sermos conscientes, livres, maduros, capazes de dar os próprios passos e trilhar a carreira que é proposta. Sem medo de nos apresentarmos por inteiro, sermos íntegros, abrirmos nossas casas e mostramos até o nosso quintal.
O meu maior medo não deve ser um terceiro, não deve ser um adversário, mas o meu eu, o meu cão, o meu Diabo. Para onde fugirei de Deus? Seja onde for sempre estarei em suas vistas, e aliás, frente a Deus sempre estou nu, desprotegido, inteiro. Não adianta ocupar a vida para não perceber o silêncio e o aquilo que somos, pois uma hora chega os dias de deserto e os latidos aumentam. A coleira não é forte o suficiente para segurar para todo sempre. Mas preciso aprender a guardar a Palavra em meu coração, preciso aprender a me entregar por inteiro, preciso aprender a me transformar todos os dias, a morrer todos os dias, para de glória em glória ser semelhante a Cristo.
A minha caminhada deve ser menos de mim e mais do outro. Deve ser o amar ao próximo como a mim mesmo. Não fugir de mim, não esconder o que sou, mas entrar em contato com isto, ver, ouvir e reconhecer meus cães, para ser transformado, para aniquilar a mim mesmo, esvaziar este meu eu, e deixar que Cristo viva em mim. Do cão eu sou dono, e preciso decidir se quero no dia mal, no silêncio, no deserto, na noite, ouvir uivos e latidos, ou descansar Nele, entregando meus medos e ansiedades em Suas mãos, trabalhando com parceria e cumplicidade, reconhecendo a necessidade de mudança, silenciando este cão, e ainda que ande pelo Vale da Sombra da Morte, não temerei mal algum, ainda que tudo se cale e eu veja quem sou, não temerei mal algum, ainda que tudo aconteça não temerei mal algum, pois Tu estás comigo. Do cão eu sou dono. Agora, quero ouvi-lo e silenciá-lo? Ou quero escondê-lo e esperar que solte-se da coleira?
terça-feira, 18 de maio de 2010
Erro Pedagógico
"Errando que se aprende", se esta frase estiver errada, até que faz sentido. Erramos muito ao repeti-la, e hoje, acho que aprendemos que deve ser reconstruída. Não faz mais sentido, e nem cabe no cotidiano e na aprendizagem de um ser humano do "século XXI", depois de bilhões de anos de evolução, milhares de anos do homo sapiens, milhares de anos de filosofia, 2 mil anos da era cristã, expressar a idéia de que só depois de cometido um erro é que se aprende.
Repensei e "filosofei" sobre esta máxima depois de muito ouvir dentro das igrejas que "Deus permite o erro pois sabe que é pedagógico", que ele nos perdoa e nos permite "pecar" (cometer infrações ou erros) porque é "errando que se aprende". Dizer que o erro é pedagógico é contribuir para um "erro pedagógico", que faz parte da Didática do Erro. A base desta didática é o exemplo do bebê, que cai muitas vezes até aprender a permanecer de pé e andar. Então, é necessário cair para aprender a se levantar.
Um erro só se torna erro depois que é percebido como erro. Só se percebe a mentira frente a verdade. É assim que funciona: o erro só é percebido depois de constatado o "acerto". No caso religioso, só se tem a percepção de que um pecado é pecado, depois que este é revelado como tal. Um pecado só é cometido depois que se tem ciência de que é pecado. Um ato pelo ato não é pecado. Mas, se existe a consciência de que o ato é pecaminoso e mesmo assim é praticado, aí torna-se "pecado". Onde quero chegar com isso? No chão. Só se pode cair estando de pé. Não é caindo que se aprende a levantar, mas é estando de pé que se descobre o que é cair.
Para Sören Kierkegaard, ignorar aquilo que se sabe é que é pecado, errado. Depois de consciente de algo, ignorar este algo é o "verdadeiro erro". Por isso escreve sobre uma Teologia da Revelação, na qual a medida que Cristo é revelado para o homem, este se torna mais responsável por si e pelo que faz. Mas apenas a partir da Revelação é que se "cobra uma postura ereta", o ficar de pé. Precisamos trocar nossa Didática do Erro, este erro pedagógico, por um novo tipo de aprendizado, resgatar algo que se perdeu no tempo, a Didática da Confiança.
Porquê devemos ouvir nossos pais? Porquê é certo? Porquê é errado? Porque eles tentarão nos esclarecer de acordo com sua experiência aquilo que faz bem e aquilo que faz mal a vida. Devo ouvi-los por confiar neles. Porquê relação sexual sem "camisinha" é prejudicial? Porque você pode contrair uma doença sexualmente transmissível ou ainda engravidar sem um planejamento adequado. É preciso ter uma relação sexual sem "camisinha" para se descobrir isto? Não. Preciso confiar em informações que me são dadas, nas histórias de pessoas que no passado viveram este tipo de situação, na medicina e por ai vai. Assim como para qualquer assunto. A Didática da Confiança é baseada nesta idéia.
Devemos aprender ouvindo e depositando nossa confiança nos outros, nos conselhos, nas histórias vividas. Porquê hoje olhamos para a História humana e definimos "erros"? Porque enxergamos os desdobramentos e consequências do que aconteceu. Não é pedagógico errar de novo (lembrando que até o que hoje é erro antes não o era) para tentar me levantar. É pedagógico sim transformar o erro como um meio de aprendizagem. Mas muito mais pedagógico, é ensinar a olhar para cima, para aquilo que é mais velho, que já foi, e buscar ou uma mão que me ajude a me manter em pé, ou observar como "eles" se mantém ou mantiveram em pé.
A missão de uma Didática da Confiança é ensinar a ouvir e confiar. Antes do erro, que é inevitável, perceber a voz do passado que não é o nosso, analisar o que está a volta, aquilo que foi, que é, instrospectivamente, silenciar a ânsia e os desejos e deixar a consciência e os conselhos falarem mais alto. Condicionarmos aquele que aprende a não inventar respostas e tomar atitudes, mas descobrir as que já foram dadas e reinterpretá-las para um novo passo. O velho chavão de que "ninguém inventa a roda". É necessário confiar naquilo que foi dito, dar ouvidos aos conselhos e advertências. Ter fé. Didática da Confiança é retomar a fé que se deve ter na família, na comunidade, nas pessoas e combater a esquisofrenia do "deixar errar", "deixe-o errar que ele aprende". O medo, a indiferença, a desconfiança da Didática do Erro geram distâncias e frieza. Não ensinam independência, mas individualismo.
Não é errando que se aprende, mas ouvindo. Ouvindo para não errar. Analisando o que já foi vivido, sentido, consentido e praticado, confio e ouço, reinterpreto e aprendo a fazer meu caminho. Construo meus passos, mantenho-me de pé, ciente de que não pretendo cair. Tenho fé. Desenvolvo minha independência. Formo uma cabeça não apenas minha cheia do pouco que sou, mas complexa, ampla e preenchida por muitos antes de mim, por muitos que estão comigo. Consigo ter minhas idéias compartilhadas e dialogando com as antigas, novas, super novas e me ajudando a dar mais passos e cair menos. Confiar no que foi dito. Confiar nos conselhos que nos dão. Confiar na história e nos valores que geram vida. Que para muitos é simplesmente desenvolver uma expansão de consciência humana, e para mim, é desenvolver minha fé e conhecer mais a Deus.
Repensei e "filosofei" sobre esta máxima depois de muito ouvir dentro das igrejas que "Deus permite o erro pois sabe que é pedagógico", que ele nos perdoa e nos permite "pecar" (cometer infrações ou erros) porque é "errando que se aprende". Dizer que o erro é pedagógico é contribuir para um "erro pedagógico", que faz parte da Didática do Erro. A base desta didática é o exemplo do bebê, que cai muitas vezes até aprender a permanecer de pé e andar. Então, é necessário cair para aprender a se levantar.
Um erro só se torna erro depois que é percebido como erro. Só se percebe a mentira frente a verdade. É assim que funciona: o erro só é percebido depois de constatado o "acerto". No caso religioso, só se tem a percepção de que um pecado é pecado, depois que este é revelado como tal. Um pecado só é cometido depois que se tem ciência de que é pecado. Um ato pelo ato não é pecado. Mas, se existe a consciência de que o ato é pecaminoso e mesmo assim é praticado, aí torna-se "pecado". Onde quero chegar com isso? No chão. Só se pode cair estando de pé. Não é caindo que se aprende a levantar, mas é estando de pé que se descobre o que é cair.
Para Sören Kierkegaard, ignorar aquilo que se sabe é que é pecado, errado. Depois de consciente de algo, ignorar este algo é o "verdadeiro erro". Por isso escreve sobre uma Teologia da Revelação, na qual a medida que Cristo é revelado para o homem, este se torna mais responsável por si e pelo que faz. Mas apenas a partir da Revelação é que se "cobra uma postura ereta", o ficar de pé. Precisamos trocar nossa Didática do Erro, este erro pedagógico, por um novo tipo de aprendizado, resgatar algo que se perdeu no tempo, a Didática da Confiança.
Porquê devemos ouvir nossos pais? Porquê é certo? Porquê é errado? Porque eles tentarão nos esclarecer de acordo com sua experiência aquilo que faz bem e aquilo que faz mal a vida. Devo ouvi-los por confiar neles. Porquê relação sexual sem "camisinha" é prejudicial? Porque você pode contrair uma doença sexualmente transmissível ou ainda engravidar sem um planejamento adequado. É preciso ter uma relação sexual sem "camisinha" para se descobrir isto? Não. Preciso confiar em informações que me são dadas, nas histórias de pessoas que no passado viveram este tipo de situação, na medicina e por ai vai. Assim como para qualquer assunto. A Didática da Confiança é baseada nesta idéia.
Devemos aprender ouvindo e depositando nossa confiança nos outros, nos conselhos, nas histórias vividas. Porquê hoje olhamos para a História humana e definimos "erros"? Porque enxergamos os desdobramentos e consequências do que aconteceu. Não é pedagógico errar de novo (lembrando que até o que hoje é erro antes não o era) para tentar me levantar. É pedagógico sim transformar o erro como um meio de aprendizagem. Mas muito mais pedagógico, é ensinar a olhar para cima, para aquilo que é mais velho, que já foi, e buscar ou uma mão que me ajude a me manter em pé, ou observar como "eles" se mantém ou mantiveram em pé.
A missão de uma Didática da Confiança é ensinar a ouvir e confiar. Antes do erro, que é inevitável, perceber a voz do passado que não é o nosso, analisar o que está a volta, aquilo que foi, que é, instrospectivamente, silenciar a ânsia e os desejos e deixar a consciência e os conselhos falarem mais alto. Condicionarmos aquele que aprende a não inventar respostas e tomar atitudes, mas descobrir as que já foram dadas e reinterpretá-las para um novo passo. O velho chavão de que "ninguém inventa a roda". É necessário confiar naquilo que foi dito, dar ouvidos aos conselhos e advertências. Ter fé. Didática da Confiança é retomar a fé que se deve ter na família, na comunidade, nas pessoas e combater a esquisofrenia do "deixar errar", "deixe-o errar que ele aprende". O medo, a indiferença, a desconfiança da Didática do Erro geram distâncias e frieza. Não ensinam independência, mas individualismo.
Não é errando que se aprende, mas ouvindo. Ouvindo para não errar. Analisando o que já foi vivido, sentido, consentido e praticado, confio e ouço, reinterpreto e aprendo a fazer meu caminho. Construo meus passos, mantenho-me de pé, ciente de que não pretendo cair. Tenho fé. Desenvolvo minha independência. Formo uma cabeça não apenas minha cheia do pouco que sou, mas complexa, ampla e preenchida por muitos antes de mim, por muitos que estão comigo. Consigo ter minhas idéias compartilhadas e dialogando com as antigas, novas, super novas e me ajudando a dar mais passos e cair menos. Confiar no que foi dito. Confiar nos conselhos que nos dão. Confiar na história e nos valores que geram vida. Que para muitos é simplesmente desenvolver uma expansão de consciência humana, e para mim, é desenvolver minha fé e conhecer mais a Deus.
sábado, 15 de maio de 2010
Deus e homem
O que está entre Deus e o homem? Outros homens. Não se enxerga a Deus se não for através de um homem. Nem se olha um homem, se não for com os olhos de Deus. O Deus que se fez homem, e que façamos o homem a imagem e semelhança de Deus.
Bruno Reikdal
Bruno Reikdal
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