quinta-feira, 26 de julho de 2012

É tempo de nos sentarmos

Me preocupo muito quando vejo um homem se levantar e apenas estender a mão para apontar o dedo na direção do rosto dos que estão sentados. Me preocupo mais ainda quando um grupo de homens se levantam para tal. Perco o sono quando uma comunidade inteira decide tomar essa postura. Para fechar minha coleção de preocupações, me desespero quando outro grupo se levanta para rir da cara do primeiro que se levantou. Isso apenas piora quando eu me vejo pertencente de um desses grupos.

Não gosto muito de "ismos". Legalismo, fundamentalismo, liberalismo, feminismo, machismo, colonialismo, capitalismo, socialismo... Acho que apenas com "cristianismo" me dei bem, mas não por causa do "ismo", e sim do Cristo. Ismos são generalizações, categorias, multidão sem rosto, corpo e cérebro. Grupos que se unem para chacota ou para humilhação, são  amantes dos ismos. Se encaixam, e tem orgulho de se encaixar, em alguma torcida desorganizada que não se senta para cear junto, mas fica de pé a rodear o mundo e procurar o primeiro justo que seja digno  de sofrimento.

Fico chateado com minha religião, muitas vezes ela dá mancadas com seus fiéis. Porém, sou amante  e defensor dos religiosos, dos que abraçam a Fé e, com toda simplicidade, põe o corpo no chão em silêncio para ouvir o Mestre, ao invés de se levantar e acusar os "mentirosos". A Fé não é funcionária da verdade, mas consolo de quem é oprimido. A Fé não é uma universalidade que faz todo sentido e responde corretamente as perguntas que lhe são propostas, mas um calado vento que escreve no chão as leis que os fiéis precisam ouvir para suportar a vida, aguentar as acusações.

Muita coisa não faz sentido. Provavelmente todos já ouviram falar da estória de Jesus do "quem não tem pecado que atire a primeira pedra" (João 8), mas às vezes nos escapa algumas cenas; nos preocupamos muito com as palavras e as "verdades ditas" e pouco com a Fé vivida. Nos esquecemos de quem estava de pé e quem estava no chão.

Fariseus imponentes jogaram uma prostituta mentirosa no chão. Deus se sentou perto dela. Homens de pé acusaram aquela falsa esperando capciosamente a resposta eterna que solucionaria os problemas do pecado. Deus sentado no chão escrevia na areia. Os detentores da verdade provavelmente tinham um sorriso no rosto enquanto viam aquele homem simples rabiscando qualquer coisa e uma prostituta envergonhada. Deus com seu dedo escreveu uma lei do Espírito na areia, onde o vento pode soprar e apagar o que fora verdadeiro naquele instante. Os homens de pé ouviram a lei e foram embora. Deus sentado pediu que a prostituta percebesse que o Criador estava sentado ao seu lado, no chão e não no alto. A mulher se levantou. Deus estava sentado; despreocupado com o que fora dito e na esperança dos próximos passos.

Não fez muita diferença o ismo da estória. O que transformou tudo foi o Cristo. Não fez muita diferença a lei escrita, dita ou seguida. O dedo na areia e Deus no chão sim. A verdade não se implantou no mundo por causa de uma Teologia, mas salvou uma vida colocando os pés no chão. O Espírito não sopra quando os homens se levantam, mas quando ele quer. Deus não fala quando um grupo encontra a verdade, mas quando Cristo está sentado com os oprimidos. A salvação é dom de Deus.




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terça-feira, 24 de julho de 2012

Escolha

Faço parte da liderança de um grupo de adolescentes de uma igreja e muitas vezes conversamos, discutimos ou nos aconselhamos sobre as dúvidas, crises e dificuldades que se apresentam em nossa religiosidade. Me parece que em nossa caminhada de Ministério, o grande problema é "como comprovar minha religião". Porque defender ou praticar ou se submeter a determinada Fé. Claro, se é para nos entregarmos às palavras de um grupo, que seja um grupo de confiança, que inspire certezas. O problema é encontrar um porto seguro, uma fundação sólida.

Seria justo depositar toda minha confiança num grupo que armou suas palavras de modo que um sistema de vocabulário e lógica respondem a todos os questionamentos levantados. Seria justo me agrupar com outros que, como eu, se fidelizem a conversas que soem como verdades. Seria muito justo me sentir à vontade de me unir a uma comunidade que se constrói solidamente em uma rede de textos, doutrinas e argumentação que responda aos meus desejos e afinidades. Seria justo, claro, se tal segurança fosse possível. Se o primeiro passo é me confidenciar à uma palavra ou um sistema de conversas, o dia que o significado de uma delas mudar, todo o castelo corre risco de ruir e a crise religiosa se instaura.

Na procura pela certeza e por provas, nos matamos na caça por argumentos, estruturas lógicas, discursos, esforços léxicos e um exercício constante de ignorância. Remoldamos as frases prontas e as falas para que ainda nos sintamos seguros, apesar de experimentarmos todos os dias aquele frio na barriga insistente que cresce ao depararmo-nos com qualquer vocabulário diferente. A crise está fundada na pergunta: "como é possível que eu tenha confiado nessa mentira?" - e as respostas ou são "só pode ser, então, verdade", ou, "se é mentira, porque ainda crer nisso?". Desse modo, retornamos ao primeiro problema de "como comprovar minha religião".

A questão não é respondermos como comprovar a religião ou nos desesperarmos por termos confiado numa verdade ou numa mentira. O ponto importante é pensarmos: em quem tenho confiado. O problema não é por as palavras à prova e retirar delas as verdades e destruir as mentiras, ou encontrar o lugar onde todos falam a verdade, mas, pensar se faz sentido depositarmos nossa Fé, nossa confiança, nas palavras por elas mesmas. Não percebemos que se a verdade está num som articulado que forma palavras, aquele que soar melhor, é de confiança. Todos soam e podem comprovar suas palavras com seus próprios sons. E qual o verdadeiro? Aquele que escolhermos como um bom som.

O passo de entrega e submissão à uma religião não é fundado em suas palavras ou em sua comprovação, mas, na escolha do fiel de acordo com suas experiências de Fé. Não é por uma comprovação que nos tornamos fiéis, mas, por querermos ser fiéis, que exigimos e procuramos uma comprovação. Porém, não percebemos nisso que a fidelidade partiu de uma escolha, de um depositar da confiança, de uma experiência de Fé. A caminhada religiosa não é a procura pela verdade dita, mas pela experiência de Fé vivida. Descobrimos que o porto seguro parte de uma escolha. A fundação sólida não está no discurso dito, mas no desejo fiel de pertencer à uma comunidade e partilhar de experiências religiosas.

Não, a Fé não procura explicações para o mundo. Não, não estamos esperando por uma certeza. Não, nossas crises não podem ser por causa dos vocabulários. Se tivermos dúvidas, não é porque as frases não respondem aos problemas do mundo, mas porque minha Fé não age para saná-los. O problema é em quem depositar minha confiança. Se nos sons, me desligarei do mundo para ouvir aquilo que me agrada. Se em Deus, darei todos os passos para que seu Reino se faça presente. Não confiemos nas palavras, mas em Cristo. Não confiemos em nossos discursos, mas em pessoas.




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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A História do Sol

Esse texto é um trecho de um artigo que estou escrevendo chamado "A Origem do Fim das Espécies". Essa é a verdadeira História do Sol:

Eram dois: um menino e uma menina. Não sabiam de onde nasceram nem de quem, mas sempre estiveram juntos. Cresceram sorrindo e prestando atenção em tudo, menos um no outro. Certa vez, depois de coçar os olhos, o menino os abriu e percebeu que havia uma linda mulher à sua frente. Era esbelta, morena, cabelos escuros, rosto delicado, lábios destacados e, ao mesmo tempo, bem afilados. Tinha um olhar penetrante e um sorriso que brilhava mais que tudo. Apaixonara-se. Quis conquistá-la, mas não sabia como. Determinado em seu amor, prometeu aos Céus que se o ajudassem a encantar a moça, faria qualquer trabalho para Eles. Esticando os braços, viu que próximo dele caiu dos Céus uma flecha flamejando. Muito contente, o rapaz correu para o encontro da mulher e começou a pintar nas paredes, nas árvores, no chão, no mundo com fogo. Escreveu o nome dos dois, desenhou corações, esquentou fogueiras, criou abrigos, manteve a chama por muito tempo acesa.

Num determinado momento, preparou uma comida quente e a convidou para o jantar. O homem e a mulher estavam juntos. Abraçaram-se, deitaram-se, tocaram-se, amaram-se. Por causa desse fogo, o homem a encantou, a mulher que já o conquistara se entregou e, amando, engravidou. Os Céus, por essa hora, chamaram o homem para seu trabalho, mas, agora, o homem já não queria trabalhar, apenas amar sua mulher. Porém os Céus lembraram de sua promessa, mas, ele, se recusou a aceitar qualquer coisa, pois não poderia abrir mão de qualquer tempo para trabalhar: seu amor queria eternidade. Enfurecidos, os Céus decidiram que o homem jamais poderia tocar nos filhos que sua mulher tivesse: sempre que nascesse um e ele nele tocasse, a criança morreria queimada. E assim foi: filho à filho, tempo em tempo, todos morriam queimados. Amargurados, homem e mulher choravam.
Depois de tempos de desespero, o homem, já ficando velho, aceitou trabalhar para que seus filhos não mais morressem. Os Céus aceitaram a tristeza do homem e decidiram sua obra: o homem com o fogo marcaria o tempo. Fez-se o Sol. A mulher estava grávida e teve filhos que jamais tocariam seu pai. Triste, afastada de seu amor, queria criar os filhos, mas não gostaria de ficar tão longe de seu marido. Já ficando velha, também cansada, clamou aos Céus pedindo que pudesse olhar por seus filhos, mas junto do homem, seu amor. Os Céus foram condescendentes: colocaram a mulher para trabalhar junto com o homem marcando o tempo. De tão feliz, abriu o sorriso mais belo do mundo para iluminar seus filhos enquanto caminhava junto com seu amor. Fez-se a Lua.

Fizeram-se Sol e Lua, o nascimento dos dias, da possibilidade dos filhos contarem Histórias e marcarem o "tempo".


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sexta-feira, 22 de junho de 2012

História e progresso.

E quantos acreditaram que a História era um progresso? Todos procuravam esperança, segurança, alguma coisa que lhes firmasse os pés. O que há de errado nisso? Nada. É mais uma crença que optamos por seguir, mais um chão que criamos para nós mesmos na tentativa de não pararmos no meio do caminho. É acho um tanto quanto arrogante crer que os mesmos pés que tentam se sustentar sejam do mesmo indivíduo que sustentará o caminho da História, que firmará o progresso. Parece que existe bastante prepotência nesse ar de auto-suficiência de um único homem. Um tanto quanto ofensivo aos demais crer que é à partir de suas mãos que a História será construída. Chego a enxergar certa idolatria narcisista: homens que adoram-se à si mesmos como deuses que impulsionam o caminho do "progresso", que depositam sua Fé em seus próprios bolsos ou em suas próprias mãos e, depois de muito vivido, se olham no Espelho já cansados de sua miséria.

História não é uma sequência de fatos. Não, não existem leis determinadas compreendidas por nós, seres superiores, e que, quando bem aplicadas, salvarão o mundo. Inclusive, chega a ser bobo uma espécie dentre bilhões de outras, frágil, sujeita à um mundo microscópio e ciente de um gigantesco universo no qual está imersa e pelo qual é engolida, sentir-se superior - mais uma crença, mais uma expressão de Fé. Qual o problema com isso? Nenhum. Exceto pelo fato de que essa Fé egoísta, egocêntrica e arrogante serve de justificativa para certos processos de destruição. Entretanto, ainda nos vemos como evoluídos, o cume do progresso e à caminho da perfeição no fim dos tempos. A História parece ser obra nossa e melhorada por nós se compararmos aos dias de nossos pais. O hoje parece muito melhor do que o ontem e, nessa lógica, provavelmente o amanhã será melhor (uma das leis determinadas que não existem).

Esquizofrenicamente, para justificarmos que o amanhã será melhor e que há uma lei de progresso, recorremos à História. Vamos até anteontem e resgatamos alguma  "história" que demonstre uma certa "evolução". Mas, se ontem foi ruim, anteontem deveria ser pior, certo? Esse ponto a Fé no progresso e na História, a Fé no próprio homem, se cala e desiste de explicar; apenas parte para a afirmação de Fé e convoca os ouvidos desatentos à sonhar com o amanhã. Pobres homens! Querem garantir que a gravidade que os põe no chão é obra de um progresso humano! Que voar também é. Mas, que loucura! Se é para crermos, porque cremos em nós mesmos? Insegurança por insegurança, prefiro maior ombridade de abrir mão das armas e das palavras para descansar no infinito e ouvir Deus falar no silêncio.

História não é progresso, nem regresso, nem linha, nem círculo, nem verdade, nem mentira, nem realidade, nem "Matrix". História é uma palavra. Palavras são sons que nos remetem à algum significado importante para nossa memória, nossa individualidade, nossas experiências de vida, nossas experiências de Fé. História é um som bem cantado, um conto bem contado, um mito que, por nós, pode ser encarnado. Não imito os anteriores tal qual eram, assim como meus sucessores não serão réplicas minhas. Se o forem, acabam de se tornar arrogantes o suficiente para idolatrar um homem, crer que a salvação vem de suas obras, e não do dom de Deus. Gerações respondem à suas necessidades, cantam suas músicas de acordo com as possibilidades que tem, cria indivíduos diferentes, absurdamente diferentes, que, mesmo sendo de mesma língua, falam diferente. Dividir essa História é matar as individualidades. Confundir esse conto histórico com realidade é matar a única coisa de genuína esperança: a experiência individual de Fé dos miseráveis.

Sustentar-se na afirmação de Fé da História, na própria História, colocando-a como a "verdade", é ingrato demais, malicioso demais, venenoso demais. Somos palha, somos pó. Enfiar-nos em nós mesmos é de uma covardia tremenda, destruidora, idólatra e infiel. É ter Fé sem crer. É ser louco crendo que é são. O bom ato de Fé é o silêncio - não crer nas verdades certas, mas nos contos bem contados, nas experiências individuais que transcendem a necessidade de explicações. É preciso ser iludido pela realidade, e não deturpá-la tornando o ilusório a realidade. Converter-se não é assumir um discurso, mas calar-se. Não procure na História a salvação, não creia no progresso: liberte-se dessas correntes, abandone a real ilusão de maldições hereditárias. O Reino dos Céus se faz no mundo; não por causa dos homens, mas pelas mãos de Deus, pela morte e ressurreição de Cristo. Permita-se tocar a ilusão real e fugir da real ilusão. Se, enfim, longe de todo progresso e de uma História de salvação, queremos caminhar, que seja com o Caminho, com a Verdade e com a Vida: experiência de Fé expressa em sua própria Encarnação. Cristo não é uma História contada, mas um conto vivido. Se dependemos de Fé, nos conheçamos e reconheçamos: crer não em nós, mas em Deus.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Verdade

"As pessoas"; tenho um problema sério com essa expressão. "O público", "o povo", o burguês", "a ciência", "os pastores" e "os qualquer outra coisa", são todos termos genéricos que me incomodam. Para garantir que não haja erro em minha fala e que ela tenha um valor "profundo", "irrefutável" e "universal", utilizo a indireta que esses termos genéricos possibilitam garantindo a maior abstração possível em nossa conversa e distanciando, desse modo, tanto a minha vida quanto a tua do problema que estamos tratando. Engraçado; descobri que não são apenas esses termos "gerais", mas, hoje, qualquer termo é genérico, abstrato e universal.  Nos habituamos a repeti-los sem saber seu significado, sem nos identificarmos com eles, sem termos coragem de colocarmos o nosso na reta: eu.

Tenho pesquisado muito Soren Kierkegaard (um amigo morto que me acompanha em conversas íntimas). Por esses dias, enquanto tomávamos chá e comíamos chocolate antes de cada um ir para seu próprio quarto e encontrar seu próprio travesseiro, ele me disse: "nenhum homem, nenhum, ousa dizer 'eu'". Ele me atiçou com essa constatação genérica enquanto contava que os indivíduos se acostumaram a ler e repetir expressões complexas e acadêmicas dos livros e dos jornais legitimadas por um saber "científico", uma superioridade de seus "intelectos" e de suas "lógicas". Se eu aprendesse a organizar uma oração de acordo com as regras estipuladas pelo "princípio correto", seria tido como um gênio. As conversas eram abstratas, genéricas, evasivas e repetitivas. Até a "verdade" se tornou genérica. Todos falando em nome dela, ninguém preocupado em mastigá-la e experimentá-la em sua própria intimidade. Todos falam, ninguém existe. De tudo se fala, nada existe.

Assim como "as pessoas", "o povo" ou "o político", "a verdade" parece ser mais um termo, mais uma generalização, mais um nada que ocupa nosso tempo enquanto assistimos TV, lemos livros/jornais ou blogs na internet. Uns até arriscam falar que ela é provisória; mas, quando o fazem, generalizam do mesmo modo que aqueles que a defendem como única. Todos falam da verdade, ninguém existe com ela. Seja caçando para si autoridade na ciência, filosofia, acadêmia, política, estética, futebol ou religião, cada um de nós quando fala da verdade, fala como se ela estivesse em um lugar parada para ser admirada. Distante, abstrata, nos céus, na terra ou no inferno, essa estátua que, para alguns, é mutante, existe em qualquer lugar, menos em nossa existência, conosco em nossa intimidade. Parece que falamos dela, mas ela não faz parte de nós, nem mesmo de nossa fala. É uma palavra que se refere a qualquer coisa com a qual não tenho parte, mas, sabe-se lá como, consigo dizer seu nome.

Verdade: uns dizem categoricamente que não existe, outros que é uma mulher, outros um homem, outros morrem de medo e, ainda mais uns genéricos, escorregam nas orações abstratas e se contentam com afirmar sua provisoriedade. Bem, não tenho problema em dizer que ela é provisória. Nem que ela é eterna, nem que é aterrorizadora, nem que é linda, nem que é qualquer coisa; quando estamos só nós, eu e ela, dentro de quatro paredes, não há ninguém que possa dizer qualquer coisa sobre nossa intimidade... Faço miséria com essa palavra. Assim como promovo riquezas. Arrebentamos juntos. Do mesmo modo que somos destruídos pelo cansaço. A verdade existe sim, e não é nem um pouco genérica: dorme e acorda comigo todos os dias, somos uma só carne, tomamos parte um do outro.

A verdade é verdade enquanto creio nela, enquanto confio no que ela é. E o que ela é? Se depende de minha crença - confiança -, é um objeto de Fé. Sendo um objeto de Fé, uma experiência existencial e íntima minha, própria, individual, não é uma questão de exprimi-la "bem" numa generalidade qualquer para ser usurpada e estuprada por qualquer um que interprete com sua própria experiência de Fé aquilo que tive que expressar através dessas bem-mal-ditas palavras. Me arrisco a colocar em sons isso que sinto para que compartilhe com mais alguém minha verdade. Porém, são apenas sons; barulhos genéricos sem valor nenhum para outro que não eu. Talvez, esse som possa ter valor para você que me ouve - ou melhor, que me lê. Mas, apenas tem valor porque experimentou alguma vez em sua intimidade dentro de quatro paredes tuas o êxtase de Fé que é mastigar o que está por trás do símbolo exprimido nessas palavras.

"A verdade"? "O povo"? "O público"? "O burguês"? "O homem"? "O indivíduo"? "A ciência"? "A religião"? Quem? Você? Eu? Entendo muito melhor agora aquela metáfora que diz que quando falamos de alguém, falamos de nós mesmos... Entendo muito melhor agora a metáfora de Paulo Freire quando diz que existe um opressor dentro do oprimido... Entendo muito melhor a metáfora que diz: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim"... São encontros! É a intimidade! Sou eu! Existimos, existo, existe...

Nossas conversas não podem ser mais genéricas, eu não devo mais ser genérico. Existe muita vida para se viver, mas abstraímos tudo para a arrogância e a comodidade de entregarmos autoridade às palavras ou algum outro mito que não o nosso de alguém que contou algo (genérico...). É ter coragem de experimentar o próprio quarto, de fechar a porta, de experimentar a quietude e a companhia de quem se confia. São opções de Fé, experiências de crenças - não, não há segurança alguma, não há terreno estável. São mitos que nos contam e que nós, podemos ou não, acreditar. São mitos que contamos à nós mesmos e, quando colocamos os pés no chão, iremos ou não passar a confiar. Estamos montados numa rede de relações e confianças. Falar de generalizações rouba muito tempo de quem mal tem tempo de viver...

A verdade existe, é única e dependente de uma experiência de Fé. Quando contar sobre ela será por meio de um belo mito que, talvez, partilhe de algum modo da experiência de alguém. As palavras não podem ser genéricas e nem nossa existência covarde. Em vida sou herói e devo ousar em minha caminhada...


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terça-feira, 22 de maio de 2012

Carta aos meus irmãos

Antes de qualquer coisa, gostaria de deixar claro que, assim como o dízimo, esse texto diz respeito única e exclusivamente aos irmãos de minha comunidade de Fé; os cristãos, os evangélicos, os betesdenses. Aqueles irmãos que me conhecem, sabem que não sou contente com nossas habituais práticas religiosas, as critico muito e, ao mesmo tempo, sou um apaixonado pela Igreja e por sua força motora de revoluções e transformações que expressam um sinal do Reino, um chamado da Eternidade. Sou receoso quanto à religião e não vivo sem ela. Sou um atormentado amante que vez por outra parece querer destruir sua casa e vez por outra fazer um puxadinho...

Irmãos, não tenho como dizer que religião é algo santo por si só; sei das guerras que foram feitas em seu nome, das culpas propagadas, das insanidades, dos seus ouvidos muitas vezes surdos e dos seus olhos quase sempre cegos. Porém, também não posso dizer o contrário, não posso rejeitá-la, negá-la, escondê-la ou anunciá-la como uma grande brincadeira, uma grande mentira. O que no mundo não é mentiroso? As ciências? Os amantes? Os tribunais? Os juízes? As faculdades? Todos legitimaram guerras, propagaram culpas, insanidades, foram surdos e quase sempre cegos. "Aquele que diz não ter mentido, é mentiroso". Mas, dizer isso tira a culpa da religião? Não, de maneira nenhuma. Porém, rouba dela o gérmen da maldade que uns e outros tem o hábito de colocar. Nenhuma Instituição é boa ou má em si mesma, mas o modo como ela existe em nossas existências se torna danoso ou benéfico.

Sem nenhuma Fé, temos o hábito de refletir sobre as coisas como causadoras do mal ou do bem; queridos, não existem as coisas, existimos nós, existo eu. Colocarmos na religião - ou em qualquer Instituição - a semente do bem e do mal e comer de seu fruto nos ausentando de nossa responsabilidade, me parece ser um ato um tanto quanto condenável...

É muita arrogância e prepotência discriminarmos aquele que age diferente de nós em sua prática religiosa tendo-o como ignorante. Se somos tão melhores assim, porque não nos fizemos de servos dos servos? Porque insistimos em ficar de pé apontando para a prostituta que jogamos de joelhos à nossa frente? Às vezes legitimamos nossa experiência de Fé como digna de Verdade não por seus frutos, mas porque ridicularizamos a aridez que vemos na plantação do vizinho.  Até onde sei, nossa Fé não nos convida a zombar dos campos com poucas vinhas, mas, pelo contrário, nos convida a dividir do fruto que tivermos. Se não temos nenhum fruto, então está na hora de pararmos de falar e começarmos a colocar a mão no arado.

Tomemos cuidado para não chutar os alicerces que permitiram que colocássemos nossas tendas de pé. Cuidado para não zombarmos do ancião ou das práticas antigas de nossa religião simplesmente por não serem as mais novas no mercado ou porque não satisfazem nosso intelecto arrogantemente alimentado por sua pretensão de superioridade. Não nos esqueçamos de que em sua geração, aquilo que hoje pode destruir, foi libertador e movimento a Fé de muita gente, animou os pobres, trouxe alivio aos cansados, abrigou os estrangeiros e resgatou os oprimidos. Hoje talvez não nos fale mais não porque a mensagem antiga em si mesma seja ruim, mas porque de tanto usada por nós, desgastou-se, perdeu sua força, fez-se danosa - assim como a religião, os tribunais, as faculdades, as ciências... Anos atrás nossa razão dizia que com certeza o Sol era o centro do Universo, mas, hoje, com certeza não existe mais centro. É danoso afirmarmos que o Sol é o centro? É danosa a ciência astronômica em si? Não podemos confiar mais nessas coisas? Não podemos confiar mais em nada? Não! Muito pelo contrário! A falta de sentido nos obriga a confiar. Confiar é ter Fé. Não há no mundo um só homem que não tenha Fé. Não há no mundo um só homem que não seja religioso. Por isso, cuidado! Não zombemos de nossos alicerces! Não chutemos o sustentáculo de nossas cabanas.

Temos que confiar em algo, temos que ter Fé em alguém. Os amantes mentem uns aos outros, mas, mesmo assim, dizem se amar, confiam no amor que vai além das corretas palavras que uns utilizam com outros. A religião fala, mas suas palavras não são boas ou ruins em si mesmas; mas somos nós, os fiéis, que a transformamos, que a guiamos para algum lugar. Confiemos, somos determinados a confiar! Não, não somos tão livres e auto-suficientes como pensávamos! Temos um destino: todo homem crê, todo homem confia: todo homem é destinado a depositar em algum lugar sua Fé. Não julguemos a religião por si, não julguemos o religioso, mas transformemos Eternamente nossa religião.

Poderia e gostaria de contar histórias sobre dogmas que rejeitamos e rimos, mas que, na verdade, podem ao mesmo tempo ser libertadores e sérios. Poderia e gostaria de reler algumas doutrinas que descartamos e fazemos piada como se não tivessem importância. Poderia e gostaria de mostrar que essa prepotência de imaginar que um rapaz de um quarto de parede branca de um apartamento de um prédio de uma rua de uma cidade de um Estado de um País de um Continente de um Mundo carregado com sua Biodiversidade de um Sistema de uma Galáxia de lugar algum seria capaz de ter a "grande sacada que ninguém teve", a "grande Fé que ninguém teve", é pecaminosa, perigosa, diabólica. Poderia e gostaria, mas não, não o farei - o texto ficaria maior do que já está...

Irmãos, examinemos a nós mesmos. Recordemos de nossos pais, de nossos avós, de nossa Fé, da Eternidade. Somos pó, as Instituições são pó. Somos todos religiosos, respeitemos nossas religiosidades. Se há denúncias, são contra os príncipes encarregados de promover o mal. Se há revolta, é contra o indivíduo que faz de sua vida uma destruição para o mundo, que egoisticamente se recolhe à sua superioridade e despreza o valor das vidas de seus próximos. Se vamos à luta, que seja contra Inimigos, não contra os próximos. Se os Inimigos já são vencidos, que não chutemos os cães mortos e disso façamos um espetáculo, mas, muito pelo contrário, celebremos dividindo do nosso pão e do nosso vinho a vitória que já é nossa.

Espero que as "meias-palavras" caiam nos bons ouvidos.

Que Deus nos abençoe.

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quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Deus está morto" - disseram ao louco.

A história de ninguém está separada da História de todos. Assim como a História de todos não pára para esperar que a história de ninguém eleve-se de tal modo que sua vida seja igual, maior ou exemplar para qualquer outro indivíduo. Não somos caricaturas da humanidade, e nem a humanidade se presta a ser molde para cada um de nós. História por história ou história por História, ou enxergamos nosso tempo como um grande mito, ou nos furtamos da Eternidade. A vida de cada indivíduo pode ser um mito para sempre. A História que elegemos como de "toda a humanidade" é um mito que se mantém enquanto cremos nele.

Deus uma vez realmente entrou na História, mas os fiéis o chamaram de "mito" e consideraram o mito da História como o real divino. Adorar o deus feito por mãos humanas é errado; não porque Deus se ire, mas porque os homens se iludem: ao criar um ídolo e o adorar, o indivíduo vê a si mesmo como maior que Deus. Chamamos nosso mito que explica as coisas de "verdade", e rejeitamos a Verdade como um mito mentiroso. A Verdade é um mito, mas um mito Eterno, um mito real - diferente da História, que é um mito com data e hora para começar e terminar...

Nietzsche, visto com maus olhos por muitos fiéis adoradores de si mesmos, constatou: "Deus está morto" - frase dita com um louco que carregava um luzeiro nas mãos. Realmente, Deus morreu no dia que os homens decidiram provar sua existência com as próprias mãos. Os esforços mentais, racionais e intelectuais de demonstrar Deus, sua necessidade, sua Vida ou até mesmo sua Inexistência, são, definitivamente, a morte de Deus. Sempre que decidimos escolher como é ou deve ser Deus, vemos que Ele nunca se conforma com nossas determinações. Sendo assim, façamos o que é digno fazer com aquele que se diz Deus mas não faz parte dos nossos modelos idólatras do divino: o crucifiquemos e guardemos numa tumba.

O exercício constante dos  homens em falar sobre o verdadeiro Deus (como se fosse possível) ou sobre a História (o divino obrado fragilmente por suas próprias mãos), é um grande jogo, uma doce brincadeira, uma maneira infrutífera de passar o tempo. É, sem dúvida, o melhor caminho para encarcerar-se na temporalidade e perder a dimensão do Eterno, a experiência da Revelação, o vislumbre da Ressurreição. Deus não entrou na História por suas palavras, mas por si mesmo. Palavras são as divisões que fazemos para tentar dominar um pouco quem Deus é. Sabendo disso, percebemos que muitas vezes corremos o risco de botar na boca de Deus criações por Ele jamais proferidas.

Enquanto nos prestamos à busca de nossa verdade, não da Verdade, guardamos Deus em seu sepulcro e afirmamos sua morte - mesmo quando falamos que ainda procuramos por sua vida. Somos como os sacerdotes que enterram Cristo e retornam ao templo para adorá-Lo (?). Nos readaptamos a rezar, orar, fazer milagres e esperar o próximo ídolo que chamaremos de Deus. "Deus está morto" - certo estava Nietzsche.

Porém, graças ao próprio Deus por aqueles que se resguardam! Que angustiados retornam às suas casas em desânimo. Graças à Deus pelos que se silenciam, que se entristecem, que sabem terem encontrado Deus pois andaram com Ele! Graças à Eternidade pela paciência desses desanimados, desses homens sem alma, desses que desistem dos exercícios da alma para compreender Deus, já que comeram de seu pão, experimentaram seu vinho, dividiram o peixe, as redes, as noites, os dias... Graças à Deus pela fidelidade dos discípulos - não a dos sacerdotes. Pois se Deus esteve morto por um dia, para aqueles que se calaram,  três dias depois foi vista sua Glória, desfrutada sua Ressurreição!

Para que Deus esteja morto, basta um são dizer saber quem Ele deve ser. Para os loucos que confiam em sua Eternidade, basta seu silêncio, já que não fazem a mínima ideia de quem Deus deve ser, pois caminham com Aquele que É. Sim, Deus morreu - para aqueles que O procuram em sua(s) História(s). Ou não, não morreu - para aqueles que deixaram de procurá-Lo nos ídolos e nas imagens para caminhar com Ele pela Eternidade...

As verdades que mais me dão medo são as proferidas por aqueles que temem a mentira...



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