Êxodo 20: 7 "Não tomarás o nome do Senhor em vão..."
Os fariseus eram estudiosos da Lei e dos Profetas que se incumbiam das interpretações dos textos e preservação das tradições. Jesus se opunha ao "espírito" do farisaísmo - não aos fariseus, pois com eles conversava e, inclusive, sempre estavam ao redor do Mestre -, pois sua postura oprimia o povo, separava os doutores que detinham a verdade dos "do povo" que não sabiam ler. As duas características criticadas por Jesus, a responsabilidade pela correta interpretação e a preservação das tradições, hoje não se encontram coladas uma na outra...
Não existem mais fariseus, mas o "espírito" do farisaísmo ainda pode ser reconhecido. Suas metades se separaram e ganharam vida própria: temos doutores da lei de um lado e protetores da sagrada doutrina de outro. Os opositores gastam energias em eternas querelas sobre predestinação, onipotência ou o sexo dos anjos - um não fala com o outro. Enquanto os doutores da lei estudam e determinam os bons métodos de leitura bíblica e as verdades que devem ser seguidas, os guardiões da tradição repetem ritos e decidem as verdadeiras atitudes que salvam o fiel. Jesus conta parábolas e experimenta das dores de quem é analfabeto ou não-praticante da verdadeira doutrina.
Doutores e tradicionais, apesar do "espírito" do farisaísmo, não se bicam. Uns se acham melhores por serem mais inteligentes, outros por serem mais santos. No fim, os dois são pó e passam fome, assim como os que nem caminham para um lado e nem para o outro, os que são acusados tanto por uns quanto por outros. Quando Jesus era inquirido sobre a verdadeira doutrina ou sobre a verdadeira interpretação das Escrituras, não respondia nem uma e nem outra, apenas olhava para aquilo que estava a sua volta, escrevia no chão ou mudava completamente de assunto, pois o mais importante era a Vida e a Vida Verdadeira.
Se falar sobre a Bíblia dividisse as pessoas, Jesus falava sobre filmes. Se acusar alguém de morte por causa da doutrina dividia pessoas, Jesus falava sobre o preço do pão. Se crer num Reino dos Céus fazia com que se esquecesse dos moradores da terra, Jesus falava sobre a dor de se pagar impostos. Se discutir teologia nos desperta o desejo de morte, melhor mudarmos a conversa, abrirmos mão do som articulado mais bonito em nome de Deus, quer dizer, em nome do nome que não se pronuncia - silêncio!
Creio que Jesus tenha levado muito a sério o mandamento que começou esse texto - "Não tomarás o nome do Senhor em vão". Jesus não se gastava em nome de Deus ou pelo nome de Deus; ele era a presença de Deus. Independentemente de seu discurso, sua justificativa, era Deus presente. A abordagem de Jesus nunca foi para explicar o sistema lógico das boas sentenças sobre Deus ou os ritos corretos que devem ser seguidos para que se seja salvo, ele preferia conversar sobre o tempo, sobre o dia e, para aqueles que eram próximos, íntimos ou os que se abriam para conversas sobre "verdades", se permitia falar do nome de Deus.
Falar o nome de Deus em vão não é pronunciar uma falsidade sobre Deus - o som sobre qualquer coisa é falso. Falar o nome de Deus em vão é deixá-lo soar em oportunidades que "matam". Quando falar sobre Deus causa destruição, prefere-se o silêncio! O nome de Deus não se pronuncia, se vive... Tomá-lo com o espírito do farisaísmo - seja lá em qual de suas duas faces - de modo que oprimimos, guerreamos, abrimos espaço para o ódio, a falta de diálogo e incompreensão, é tomá-lo em vão...
Teologia ou doutrina não salvam ninguém, não convertem ninguém, não transformam água em vinho. Quem faz essas coisas é Cristo. Cristo não entra sem pedir, ele bate à porta. Cristo não se restringe às verdades, ele as atravessa e vai rumo àquilo que é eterno: trânsito, preço do frango, boas músicas, filmes, futebol, política, elogio ao belo, boas piadas... Àquilo que realmente acontece, nos faz sentir, nos faz viver. Salvação é do cotidiano, Deus participa é do cotidiano. Querer tirá-lo do mundo é tomar seu nome em vão. Em nome de Deus mudamos nossas conversas, não pronunciamos seu nome. O espírito do farisaísmo o põe em todo canto, mas não o vive, o repete, mas não se transforma. Silêncio! Se formos falar de Deus, que seja para trazer salvação aos povos, liberdade aos oprimidos. Vivamos mais, falemos menos...
Gratis i Kristus
terça-feira, 26 de março de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
Fé que nos move
Tenho escrito pouco, trabalhado um tanto, lido muito. Minhas leituras recentes tem sido sobre a "conquista" da América Latina pelos portugueses e espanhóis. Não tenho me preocupado em entender a "história" da conquista ou "o que aconteceu nesse processo". Minha atenção está voltada par ao seguinte: as estruturas de Fé que sustentaram a vinda colonizadora dos cristãos europeus para cá. Uma série de discursos teológicos justificou a escravidão e, mais do que isso, a Fé que rondava o coração de uma série de pessoas efetivava a escravidão.
A confiança de que índios não eram humanos - chegando, inclusive, a se afirmar em tratados teológicos e em diretrizes do direito canônico que eles não passavam de "animais que falavam" - era enraizada, movia as ações cotidianas de encomendeiros, fazendeiros, bandeirantes, catequistas, padres e nobres. A Fé que Deus era o responsável por essa "animalidade indígena" não era mero discurso, era prática das crenças. O que me intriga é exatamente isso: a Fé é o que move as pessoas. O ponto não é uma disputa entre o "Mercado" e a Fé, a Razão e a Fé, o dinheiro e a Fé, a religião e a Fé, o dogma e a Fé ou a Fé falsa e a Fé verdadeira. A questão é que a Fé que comanda os dias foi orientada para a destruição da vida de outros e, com isso, justificada por discursos e leis.
O que comandou a conquista e a tirania com os índios? A Fé. O que levou, em sentido oposto, uma série de padres e nobres a se levantarem contra essa tirania? A Fé. A Fé que cria que um pedaço de pedra dourada escondida debaixo de terra vale mais do que a vida de uma pessoa liderou a conquista. A Fé de que um índio é tão pessoa quanto um europeu, despertou movimentos de libertação. O que me intriga é que é a Fé que ordena o cotidiano.
É a crença que temos no que "é o ser humano", "o que é valoroso", "quem é o divino", "o que é mais importante na vida" e etc, que serve de apoio para nossas decisões. Se cremos em metais, serão eles nossos deuses. Se cremos em um povo, será ele nosso deus. Se cremos em Cristo, será Ele nosso Deus. Dizemos que no tempo das conquistas o Estado era Teocrático porque era comandado pela "Fé". Digo que nosso Estado é Teocrático porque também é comandado pela "Fé". Antes a Fé era numa Instituição religiosa, agora é a Fé num Sistema comandado por uma "mão invisível".
Nos tempos de Cristo existia um Império. Seu povo cria que surgiria um imperador mais poderoso do que César: o Messias - que viria para implantar o Reino dos Céus. Esperava-se que dos Céus viesse um poderoso exército para dominar aquilo que fora dominado pelo Império Romano. Cria-se na força, cria-se na Lei. A Fé se voltava para articulações políticas sustentadas por Deus fortes o suficiente para tirar inimigos do poder. A Lei e a Política eram mais importantes do que o resto. Ter um cargo era fundamental, ter o Messias que entregasse ao povo os cargos de poder, seria a salvação.
Jesus ao invés de nascer na Fé em reis, nasceu na Fé de pastores e magos. Ao invés de nascer na Fé de palácios, nasceu na Fé de pessoas - e pessoas excluídas, desacreditadas. Ao invés de nascer na Fé de conquista de reinos, nasceu na Fé de construção do Reino. Ao invés de nascer na Fé de tornar inimigos escravos, nasceu na Fé de amar inimigos a ponto de libertá-los. Ao invés de nascer na Fé de matar o outro, nasceu na Fé de morrer por alguém. Ao invés da Fé nas moedas, teve Fé em pessoas...
Fé temos, a questão é para onde a direcionamos, para onde a orientamos. A Fé não é justificativa para algo, é a motivação. Os discursos tentam justificar nossas ações, mas é a Fé que nos move. Por isso, o encanto da conversão não é aprender uma nova pregação, mas reorientar, redirecionar, converter nossa Fé para algo que seja Eterno...
Gratis i Kristus
A confiança de que índios não eram humanos - chegando, inclusive, a se afirmar em tratados teológicos e em diretrizes do direito canônico que eles não passavam de "animais que falavam" - era enraizada, movia as ações cotidianas de encomendeiros, fazendeiros, bandeirantes, catequistas, padres e nobres. A Fé que Deus era o responsável por essa "animalidade indígena" não era mero discurso, era prática das crenças. O que me intriga é exatamente isso: a Fé é o que move as pessoas. O ponto não é uma disputa entre o "Mercado" e a Fé, a Razão e a Fé, o dinheiro e a Fé, a religião e a Fé, o dogma e a Fé ou a Fé falsa e a Fé verdadeira. A questão é que a Fé que comanda os dias foi orientada para a destruição da vida de outros e, com isso, justificada por discursos e leis.
O que comandou a conquista e a tirania com os índios? A Fé. O que levou, em sentido oposto, uma série de padres e nobres a se levantarem contra essa tirania? A Fé. A Fé que cria que um pedaço de pedra dourada escondida debaixo de terra vale mais do que a vida de uma pessoa liderou a conquista. A Fé de que um índio é tão pessoa quanto um europeu, despertou movimentos de libertação. O que me intriga é que é a Fé que ordena o cotidiano.
É a crença que temos no que "é o ser humano", "o que é valoroso", "quem é o divino", "o que é mais importante na vida" e etc, que serve de apoio para nossas decisões. Se cremos em metais, serão eles nossos deuses. Se cremos em um povo, será ele nosso deus. Se cremos em Cristo, será Ele nosso Deus. Dizemos que no tempo das conquistas o Estado era Teocrático porque era comandado pela "Fé". Digo que nosso Estado é Teocrático porque também é comandado pela "Fé". Antes a Fé era numa Instituição religiosa, agora é a Fé num Sistema comandado por uma "mão invisível".
Nos tempos de Cristo existia um Império. Seu povo cria que surgiria um imperador mais poderoso do que César: o Messias - que viria para implantar o Reino dos Céus. Esperava-se que dos Céus viesse um poderoso exército para dominar aquilo que fora dominado pelo Império Romano. Cria-se na força, cria-se na Lei. A Fé se voltava para articulações políticas sustentadas por Deus fortes o suficiente para tirar inimigos do poder. A Lei e a Política eram mais importantes do que o resto. Ter um cargo era fundamental, ter o Messias que entregasse ao povo os cargos de poder, seria a salvação.
Jesus ao invés de nascer na Fé em reis, nasceu na Fé de pastores e magos. Ao invés de nascer na Fé de palácios, nasceu na Fé de pessoas - e pessoas excluídas, desacreditadas. Ao invés de nascer na Fé de conquista de reinos, nasceu na Fé de construção do Reino. Ao invés de nascer na Fé de tornar inimigos escravos, nasceu na Fé de amar inimigos a ponto de libertá-los. Ao invés de nascer na Fé de matar o outro, nasceu na Fé de morrer por alguém. Ao invés da Fé nas moedas, teve Fé em pessoas...
Fé temos, a questão é para onde a direcionamos, para onde a orientamos. A Fé não é justificativa para algo, é a motivação. Os discursos tentam justificar nossas ações, mas é a Fé que nos move. Por isso, o encanto da conversão não é aprender uma nova pregação, mas reorientar, redirecionar, converter nossa Fé para algo que seja Eterno...
Gratis i Kristus
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Religiosidade Política
Sempre escrevo sobre Fé, religião e espiritualidade. Hoje postarei
comentários de religiosos que partilham de sua religiosidade em todas as
esferas de sua vida: muçulmanos.
A emissora de televisão "Al Jazeera" (que foi a emissora de televisão com a maior expansão de rede dos últimos anos) noticiou a eleição da primeira mulher governadora de distrito no Afeganistão - depois da queda do regime talibã em 2001-2002.
A emissora de televisão "Al Jazeera" (que foi a emissora de televisão com a maior expansão de rede dos últimos anos) noticiou a eleição da primeira mulher governadora de distrito no Afeganistão - depois da queda do regime talibã em 2001-2002.
Saira, moradora de uma cidade onde habitam 5.000 famílias, disse,
ao assumir, que governaria pela "mudança e pelo progresso". A Al
Jazeera noticiou a posse da primeira mulher governadora de distrito com grande
entusiasmo, o que gerou alguns comentários interessantes de muçulmanos em
páginas do facebook e que tomei a liberdade de traduzir:
"Bosniaco Vero: Aljazeera, vocês são propagandistas. O que é governadora de distrito? Temos mulheres Governadoras provinciais, mulheres chefes de polícia e até uma ministra da guerra, mulheres com os homens sob seu controle e temos mulheres candidatas a eleições. Aljazeera é um fantoche do presidente do Ocidente. Booooo!!! [...] não houve momento na história islâmica em que as mulher eram mais respeitadas do que exatamente na era do Profeta Maomé, então o que você está falando?? Uma mulher governou Aleppo 800 anos atrás, uma mulher governou o Paquistão há 40 anos, por que as pessoas estão sendo estúpidas para agradar hipócritas do Ocidente??"
"Umar Abdul Farouq: Eu acho que as mulheres ganharam o direito de governar, o tempo do profeta Maomé foi totalmente diferente do nosso tempo. Homens deram às mulheres a paz de espírito naqueles dias, tudo o que oferecem hoje são a guerra, o desemprego, a fome, a mágoa... Querem comparar o tempo do profeta Maomé com Bashir al'Assad? Conosco, homens de hoje, nossas mulheres precisam é de cuidado para crescerem fortes, porque as coisas podem evoluir."
"Abdelali Azhari: Esperemos que a América aprenda com o resto do mundo e um dia logo eleja um presidente do sexo feminino. América é realmente o único país 'desenvolvido' que nunca teve um presidente do sexo feminino. É engraçado como os americanos criticam os outros de oprimir as mulheres, quando na verdade, as mulheres nos Estados Unidos são as mais oprimidas."
"Umar Abdul Farouq: Deus salve sua alma. Há alguns retardados que acreditam que as mulheres não devem governar sobre os homens, agora ela será infiel a eles! LOL."
"Bosniaco Vero: Aljazeera, vocês são propagandistas. O que é governadora de distrito? Temos mulheres Governadoras provinciais, mulheres chefes de polícia e até uma ministra da guerra, mulheres com os homens sob seu controle e temos mulheres candidatas a eleições. Aljazeera é um fantoche do presidente do Ocidente. Booooo!!! [...] não houve momento na história islâmica em que as mulher eram mais respeitadas do que exatamente na era do Profeta Maomé, então o que você está falando?? Uma mulher governou Aleppo 800 anos atrás, uma mulher governou o Paquistão há 40 anos, por que as pessoas estão sendo estúpidas para agradar hipócritas do Ocidente??"
"Umar Abdul Farouq: Eu acho que as mulheres ganharam o direito de governar, o tempo do profeta Maomé foi totalmente diferente do nosso tempo. Homens deram às mulheres a paz de espírito naqueles dias, tudo o que oferecem hoje são a guerra, o desemprego, a fome, a mágoa... Querem comparar o tempo do profeta Maomé com Bashir al'Assad? Conosco, homens de hoje, nossas mulheres precisam é de cuidado para crescerem fortes, porque as coisas podem evoluir."
"Abdelali Azhari: Esperemos que a América aprenda com o resto do mundo e um dia logo eleja um presidente do sexo feminino. América é realmente o único país 'desenvolvido' que nunca teve um presidente do sexo feminino. É engraçado como os americanos criticam os outros de oprimir as mulheres, quando na verdade, as mulheres nos Estados Unidos são as mais oprimidas."
"Umar Abdul Farouq: Deus salve sua alma. Há alguns retardados que acreditam que as mulheres não devem governar sobre os homens, agora ela será infiel a eles! LOL."
"Shoaib Adam: Se os homens e as mulheres do Afeganistão estão fazendo isso para a guerra de gênero como no ocidente, em seguida, será a sua queda. Se eles estão fazendo para trazer o Islã de acordo com Deus e seu Mensageiro, que foi rotulado como terrorista, então talvez haja alguma coisa para falarmos sobre."
As posturas e decisões dos países muçulmanos se confundem com a
religião, carregam explicitamente o fervor de sua Fé. Entretanto, em qual lugar
no mundo uma decisão não é sustentada por crenças, confiança, experiência de
Fé? Uns se justificam em cartas de direito "laicos", outros em uma
política que tenta ser "fria", mas, qual não está seguro pela Fé e
pelos desejos escondidos no fundo dos olhos dos homens?
Gratis i Kristus
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Fundamentalismo: pelo fundamento
Já disse outra vez em outro post que não gosto de "ismos" - o único que me interessa é o cristianismo; por causa de Cristo, e não do "ismo". Porém, aqui nesse texto, lançarei mão de um termo muito gasto e que termina com "ismo". Assim como quanto a Cristo, não o usarei por causa do "ismo", mas, por causa do "fundamento": fundamentalismo.
Esse termo anda muito desgastado. Para um grupo ele remete ao movimento de guarnição da sã doutrina e salvação da humanidade, enquanto que para outro é exatamente o contrário: objeto a ser jogado fora e considerado um lixo produzido pela mesma humanidade. Para mim, não será nem uma coisa e nem outra. Aprendi num livro infantil (Alice no País dos Espelhos) que as palavras dizem aquilo que eu quiser que elas digam - dependerá do salário que eu pagar para cada uma delas.
Não vou criticar quem ataca o fundamentalismo ou todo tipo de tradição - apesar de achar que atacar tradições pelo fato de serem tradições é uma grandessíssima besteira -, e muito menos defender quem se firma tanto a tradições que não consegue mais sair do barco e andar sobre as águas para se encontrar com Cristo. Vou aqui dizer que creio em um fundamento, que o defendo e que jamais abriria mão dele. Creio que esse fundamento seja chave de nossas relações de proximidade e de nossas relações com Deus. Creio em um fundamento que é o ponto de partida e o alvo em que devemos manter os olhos fixos. Creio que nos fundamentamos em nosso encontro com Cristo.
O ponto de partida de nossas experiências de Fé é o que chamamos de "encontro com Jesus". Alguns marcam dias, escolhem datas, períodos, músicas e outros escolhem afirmar que esse encontro precisa ser repetido todos os dias. Qual será a afirmação, acho que não faz diferença. O importante é que nossa construção de Fé e toda nossa caminhada dependerá desse encontro, do resgate desse encontro, das interpretações que daremos à experiência desse encontro. Temos nosso fundamento: o encontro.
Ao mesmo tempo que esse encontro é o ponto de partida, deveria ser ele o filtro para as próximas escolhas de nossa vida - nossa Nova Vida. Deveria ser através dele nosso processo de alimentar esperanças. Deveria ser ele o crivo, a pedra fundamental para nossa interpretação da Bíblia e suas passagens. A experiência íntima e única com Cristo deveria guiar nossos passos, apontar para onde devemos seguir, apontar para Cristo. Assim como a Ceia, o encontro com Cristo é resgatar na memória as esperanças para o futuro...
Nesse ponto, devemos ser "fundamentalistas" - não abrir mão do primado do encontro com Cristo. Carlos Mesters disse que Deus escreveu dois livros: a Vida e a Bíblia, sendo que o primeiro deve ser lido antes para que se entenda o segundo. É exatamente isso! Nosso encontro com Cristo se dá na vida, no cotidiano, na experiência com a Vida; é depois dela que temos a experiência religiosa, de leitura Bíblica, costumes, reflexões, renovações ou o que mais quisermos listar.
Sim, há um fundamento a ser guardado, há um ponto em que devemos ser fundamentalistas. O que me intriga é essa tentativa de resgatarmos a experiência do encontro com Cristo - os sentimentos, o que dissemos, o que ouvimos, o que testemunhamos, pois, se foi uma experiência de amor, como leremos os textos bíblicos? Se é uma relação de redenção imerecida, como nos relacionaremos com o próximo? Se é uma experiência que transcendeu paredes, roupas e aparências, como trataremos as diferenças? Se nos foi Revelado de maneira que entendemos e todos podem também entender quando testemunhamos sem a necessidade de esforço, o que afirmaremos sobre profecias? Se resgatarmos esse fundamento, em que chão estaremos pisando?
Gratis i Kristus
Esse termo anda muito desgastado. Para um grupo ele remete ao movimento de guarnição da sã doutrina e salvação da humanidade, enquanto que para outro é exatamente o contrário: objeto a ser jogado fora e considerado um lixo produzido pela mesma humanidade. Para mim, não será nem uma coisa e nem outra. Aprendi num livro infantil (Alice no País dos Espelhos) que as palavras dizem aquilo que eu quiser que elas digam - dependerá do salário que eu pagar para cada uma delas.
Não vou criticar quem ataca o fundamentalismo ou todo tipo de tradição - apesar de achar que atacar tradições pelo fato de serem tradições é uma grandessíssima besteira -, e muito menos defender quem se firma tanto a tradições que não consegue mais sair do barco e andar sobre as águas para se encontrar com Cristo. Vou aqui dizer que creio em um fundamento, que o defendo e que jamais abriria mão dele. Creio que esse fundamento seja chave de nossas relações de proximidade e de nossas relações com Deus. Creio em um fundamento que é o ponto de partida e o alvo em que devemos manter os olhos fixos. Creio que nos fundamentamos em nosso encontro com Cristo.
O ponto de partida de nossas experiências de Fé é o que chamamos de "encontro com Jesus". Alguns marcam dias, escolhem datas, períodos, músicas e outros escolhem afirmar que esse encontro precisa ser repetido todos os dias. Qual será a afirmação, acho que não faz diferença. O importante é que nossa construção de Fé e toda nossa caminhada dependerá desse encontro, do resgate desse encontro, das interpretações que daremos à experiência desse encontro. Temos nosso fundamento: o encontro.
Ao mesmo tempo que esse encontro é o ponto de partida, deveria ser ele o filtro para as próximas escolhas de nossa vida - nossa Nova Vida. Deveria ser através dele nosso processo de alimentar esperanças. Deveria ser ele o crivo, a pedra fundamental para nossa interpretação da Bíblia e suas passagens. A experiência íntima e única com Cristo deveria guiar nossos passos, apontar para onde devemos seguir, apontar para Cristo. Assim como a Ceia, o encontro com Cristo é resgatar na memória as esperanças para o futuro...
Nesse ponto, devemos ser "fundamentalistas" - não abrir mão do primado do encontro com Cristo. Carlos Mesters disse que Deus escreveu dois livros: a Vida e a Bíblia, sendo que o primeiro deve ser lido antes para que se entenda o segundo. É exatamente isso! Nosso encontro com Cristo se dá na vida, no cotidiano, na experiência com a Vida; é depois dela que temos a experiência religiosa, de leitura Bíblica, costumes, reflexões, renovações ou o que mais quisermos listar.
Sim, há um fundamento a ser guardado, há um ponto em que devemos ser fundamentalistas. O que me intriga é essa tentativa de resgatarmos a experiência do encontro com Cristo - os sentimentos, o que dissemos, o que ouvimos, o que testemunhamos, pois, se foi uma experiência de amor, como leremos os textos bíblicos? Se é uma relação de redenção imerecida, como nos relacionaremos com o próximo? Se é uma experiência que transcendeu paredes, roupas e aparências, como trataremos as diferenças? Se nos foi Revelado de maneira que entendemos e todos podem também entender quando testemunhamos sem a necessidade de esforço, o que afirmaremos sobre profecias? Se resgatarmos esse fundamento, em que chão estaremos pisando?
Gratis i Kristus
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Desejo para um novo ano
Hoje, dia 2 de janeiro de 2013, sentei no sofá com aquele jeito preguiçoso para começar o dia. Passei as mãos nos olhos e pensei: "que desejo nesse novo ano - além de voltar para a cama, claro -?". E a resposta veio apressadamente lenta:
Desejo aprender a me conformar com aquilo que demanda tempo e a não me conformar com o que já perdeu sua hora.
Creio que preciso de um relógio novo.
Existem problemas que ao experimentarmos os valorizamos demais, exigimos mudanças, ficamos inconformados. Não necessariamente sejam problemas dignos de inconformidade ou urgentes de transformação, mas, por estarem próximos ou nos parecerem "manipuláveis", sentimos emergencialmente a responsabilidade super-heroica de sanar seus males. Não são problemas que alteram nossa caminhada, que destroem pessoas, mas, são pequenos, fracos, do tamanho do nosso punho fechado. Tratamos logo de esmurrar com gosto. Desejo aprender a me conformar com eles, dar-lhes tempo, entender que não é por que estão menores do que eu que devam ser por mim destruídos...
Por outro lado, existem problemas que nos preocupam, mas, não recebem a devida atenção. Por serem grandes demais, maiores do que o que consideramos normal, fazem sombra nas nossas casas, mas, não ficamos inconformados, preferimos dizer que essa nuvem é passageira - apesar de não termos o menor controle sobre ela. Nesse caso, por serem maiores do que nosso punho fechado, é melhor que não fiquemos inconformados com essas atrocidades - poderíamos ser esmagados ou não termos nossas vozes ouvidas: gritaríamos e seria o mesmo que o silêncio. Então, melhor poupar. Não, eu desejo aprender a não me conformar com o que já perdeu sua hora. Essas nuvens estão nos céus a tempo demais, fazendo sombra em minha casa por eras. É hora de entender que por serem problemas maiores do que eu, destroem vidas de outros. Se não os manipulo, é porque consigo vê-los para além de mim, fora do meu terreno. Sou estrangeiro, de outro mundo e, por isso, posso transformá-los, fazer deles algo que nunca imaginaram ser...
Desejo para esse ano poder inverter esses valores: poupar os pequenos e sumir com os grandes. Kierkegaard escreveu em Temor e tremor:
Porque aquele que se amou a si próprio foi grande pela sua pessoa; quem amou a outrem foi grande dando-se; mas o que amou a Deus foi o maior de todos [...] Porque aquele que lutou contra o mundo, foi grande triunfando do mundo, o que combateu consigo próprio foi grande pela vitória que alcançou sobre si — mas aquele que lutou contra Deus foi o maior de todos [...] Viu-se os que se apoiaram em si próprios e tudo triunfaram e os outros, fortes da sua força, tudo sacrificaram — mas, o maior de todos foi o que acreditou em Deus.
Creio precisar de um novo relógio: confiar na eternidade maior do que minhas mãos e cuidar com zelo os pequenos segundos marcados pelos homens em riscos do tamanho de manchas em meu dedo...
Gratis i Kristus
Desejo aprender a me conformar com aquilo que demanda tempo e a não me conformar com o que já perdeu sua hora.
Creio que preciso de um relógio novo.
Existem problemas que ao experimentarmos os valorizamos demais, exigimos mudanças, ficamos inconformados. Não necessariamente sejam problemas dignos de inconformidade ou urgentes de transformação, mas, por estarem próximos ou nos parecerem "manipuláveis", sentimos emergencialmente a responsabilidade super-heroica de sanar seus males. Não são problemas que alteram nossa caminhada, que destroem pessoas, mas, são pequenos, fracos, do tamanho do nosso punho fechado. Tratamos logo de esmurrar com gosto. Desejo aprender a me conformar com eles, dar-lhes tempo, entender que não é por que estão menores do que eu que devam ser por mim destruídos...
Por outro lado, existem problemas que nos preocupam, mas, não recebem a devida atenção. Por serem grandes demais, maiores do que o que consideramos normal, fazem sombra nas nossas casas, mas, não ficamos inconformados, preferimos dizer que essa nuvem é passageira - apesar de não termos o menor controle sobre ela. Nesse caso, por serem maiores do que nosso punho fechado, é melhor que não fiquemos inconformados com essas atrocidades - poderíamos ser esmagados ou não termos nossas vozes ouvidas: gritaríamos e seria o mesmo que o silêncio. Então, melhor poupar. Não, eu desejo aprender a não me conformar com o que já perdeu sua hora. Essas nuvens estão nos céus a tempo demais, fazendo sombra em minha casa por eras. É hora de entender que por serem problemas maiores do que eu, destroem vidas de outros. Se não os manipulo, é porque consigo vê-los para além de mim, fora do meu terreno. Sou estrangeiro, de outro mundo e, por isso, posso transformá-los, fazer deles algo que nunca imaginaram ser...
Desejo para esse ano poder inverter esses valores: poupar os pequenos e sumir com os grandes. Kierkegaard escreveu em Temor e tremor:
Porque aquele que se amou a si próprio foi grande pela sua pessoa; quem amou a outrem foi grande dando-se; mas o que amou a Deus foi o maior de todos [...] Porque aquele que lutou contra o mundo, foi grande triunfando do mundo, o que combateu consigo próprio foi grande pela vitória que alcançou sobre si — mas aquele que lutou contra Deus foi o maior de todos [...] Viu-se os que se apoiaram em si próprios e tudo triunfaram e os outros, fortes da sua força, tudo sacrificaram — mas, o maior de todos foi o que acreditou em Deus.
Creio precisar de um novo relógio: confiar na eternidade maior do que minhas mãos e cuidar com zelo os pequenos segundos marcados pelos homens em riscos do tamanho de manchas em meu dedo...
Gratis i Kristus
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Devo crucificar o rei de vocês?
Trechos de João 18 e 19:
"Pilatos então voltou para o Pretório, chamou Jesus e lhe perguntou: 'Você é o rei dos judeus?'
Em resposta, perguntou-lhe Jesus: 'Essa pergunta é tua ou outros te falaram a meu respeito?'
Respondeu Pilatos: 'Acaso sou judeu? Foram o seu povo e os chefes dos sacerdotes que te entregaram a mim. Que é que você fez?'
Disse Jesus: 'Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas, agora, o meu Reino não é daqui.'
'Então você é rei?', disse Pilatos.
'Você que está dizendo', respondeu Jesus, 'De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'.
'Que é a verdade?', Pilatos perguntou e saiu novamente para onde estavam os judeus [...]
'Querem que eu solte o rei dos judeus?' [...] 'Devo crucificar o rei de vocês?'"
Existem perguntas que não fazem sentido para uma experiência de Fé. "Que é a verdade?", por exemplo, é uma pergunta que não encontra espaço nas experiências cristãs. A resposta para uma pergunta como essa está escondida na ponta da língua: "Jesus". "Qual o caminho?" ou "O que é a vida?" também não fazem parte das investigações de um cristão: "Jesus" é a resposta para essas perguntas. Aliás, na experiência de Fé cristã Ele é a resposta para todas as inquietações, para todas as angústias. Se não devemos ter preocupações que nos roubem o sono, é porque devemos entregar a Ele nossas angústias e descansar. "Jesus", a resposta pronta para a pergunta.
Tudo bem, temos uma resposta. Isso não é problema. A dificuldade está no passo verdadeiramente importante: o que faremos com ela? Agora sim encontramos uma pergunta que cabe em nossos encontros com Cristo. Pilatos sabe essa resposta, entendeu o que seria respondido na conversa com Jesus. A questão que lhe tiraria o sono era: "o que fazer com esse homem? O que faremos com o 'rei dos judeus'?". Quando ele pergunta se Jesus é rei, a resposta é maravilhosa: "Você que está dizendo...". Exatamente! A resposta já demos, o problema é: "o que faremos com ela?"
A conversa entre Jesus e Pilatos me deixou encantado, pois, antes de ser assassinado publicamente por causa da Lei, Jesus se encontra com governante que descobre em sua conversa com Cristo que suas ações tem um valor muito maior do que as justificativas dadas para elas. Jesus não tem o título de rei, mas, é reconhecido como um por como Ele vive, por quem Ele é. Jesus não precisa argumentar sobre sua inocência, pois a maneira como age é inocente. Jesus não precisa falar sobre a verdade, Ele testemunha ela. Jesus não precisa provar o que é verdade, pois, aquilo que vive é verdadeiro. Pilatos percebe essa sutileza em seu encontro com Jesus, e quando pergunta "Que é a verdade?", não quer saber da resposta - pouco importa -, ele a encontrou no testemunho de Cristo. Para Pilatos o que efetivamente tinha valor era "querem que eu solte o 'rei dos judeus'?"
A verdade estava dada, mostrada, experimentada, viva. "Devo crucificar o rei de vocês?", aí sim! Essa pergunta cabe em nossa experiência de Fé com Cristo. A reação daquele que é discípulo, que se permitiu ouvir a verdade testemunhada, é de prontamente gritar "não!". Talvez, quem sabe, até sacar uma espada e correr para cortar as orelhas daqueles que o prendem para não ouvirem a pergunta, para não tentarem crucificá-lo. E é, mais uma vez, nesse instante, que a verdade é testemunhada por Cristo: reconstitui a orelha daquele que fora ferido por seu discípulo e ensina a necessidade da liberdade, de um Reino que não se conquista lutando contra carne ou sangue, que se permite a maldade de quem deseja matar Deus. Não corte a orelha de quem me prende, mas, tente testemunhar a verdade do Reino que não é deste mundo.
As perguntas sobre a verdade, o caminho, a vida, Deus, amor, liberdade, eternidade e etc, são perguntas para as quais temos a resposta: Jesus. O fundamental da experiência com essa "resposta" é entendermos que ela não é um som ou sinais escritos, mas, uma pessoa, carne, gente. É material, usual, funcional. Pão que se come, água e vinho que se bebe. Jesus é uma experiência de vida, experiência verdadeira de Fé. Assim sendo, a pergunta que faz sentido para essa experiência é: "o que faremos com o Cristo?", "devemos crucificar nosso rei?". Nossa experiência é do Cristo vivo, e vivo não procura uma boa resposta, mas, vive aquilo que crê ser uma boa pergunta.
Gratis i Kristus
"Pilatos então voltou para o Pretório, chamou Jesus e lhe perguntou: 'Você é o rei dos judeus?'
Em resposta, perguntou-lhe Jesus: 'Essa pergunta é tua ou outros te falaram a meu respeito?'
Respondeu Pilatos: 'Acaso sou judeu? Foram o seu povo e os chefes dos sacerdotes que te entregaram a mim. Que é que você fez?'
Disse Jesus: 'Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas, agora, o meu Reino não é daqui.'
'Então você é rei?', disse Pilatos.
'Você que está dizendo', respondeu Jesus, 'De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'.
'Que é a verdade?', Pilatos perguntou e saiu novamente para onde estavam os judeus [...]
'Querem que eu solte o rei dos judeus?' [...] 'Devo crucificar o rei de vocês?'"
Existem perguntas que não fazem sentido para uma experiência de Fé. "Que é a verdade?", por exemplo, é uma pergunta que não encontra espaço nas experiências cristãs. A resposta para uma pergunta como essa está escondida na ponta da língua: "Jesus". "Qual o caminho?" ou "O que é a vida?" também não fazem parte das investigações de um cristão: "Jesus" é a resposta para essas perguntas. Aliás, na experiência de Fé cristã Ele é a resposta para todas as inquietações, para todas as angústias. Se não devemos ter preocupações que nos roubem o sono, é porque devemos entregar a Ele nossas angústias e descansar. "Jesus", a resposta pronta para a pergunta.
Tudo bem, temos uma resposta. Isso não é problema. A dificuldade está no passo verdadeiramente importante: o que faremos com ela? Agora sim encontramos uma pergunta que cabe em nossos encontros com Cristo. Pilatos sabe essa resposta, entendeu o que seria respondido na conversa com Jesus. A questão que lhe tiraria o sono era: "o que fazer com esse homem? O que faremos com o 'rei dos judeus'?". Quando ele pergunta se Jesus é rei, a resposta é maravilhosa: "Você que está dizendo...". Exatamente! A resposta já demos, o problema é: "o que faremos com ela?"
A conversa entre Jesus e Pilatos me deixou encantado, pois, antes de ser assassinado publicamente por causa da Lei, Jesus se encontra com governante que descobre em sua conversa com Cristo que suas ações tem um valor muito maior do que as justificativas dadas para elas. Jesus não tem o título de rei, mas, é reconhecido como um por como Ele vive, por quem Ele é. Jesus não precisa argumentar sobre sua inocência, pois a maneira como age é inocente. Jesus não precisa falar sobre a verdade, Ele testemunha ela. Jesus não precisa provar o que é verdade, pois, aquilo que vive é verdadeiro. Pilatos percebe essa sutileza em seu encontro com Jesus, e quando pergunta "Que é a verdade?", não quer saber da resposta - pouco importa -, ele a encontrou no testemunho de Cristo. Para Pilatos o que efetivamente tinha valor era "querem que eu solte o 'rei dos judeus'?"
A verdade estava dada, mostrada, experimentada, viva. "Devo crucificar o rei de vocês?", aí sim! Essa pergunta cabe em nossa experiência de Fé com Cristo. A reação daquele que é discípulo, que se permitiu ouvir a verdade testemunhada, é de prontamente gritar "não!". Talvez, quem sabe, até sacar uma espada e correr para cortar as orelhas daqueles que o prendem para não ouvirem a pergunta, para não tentarem crucificá-lo. E é, mais uma vez, nesse instante, que a verdade é testemunhada por Cristo: reconstitui a orelha daquele que fora ferido por seu discípulo e ensina a necessidade da liberdade, de um Reino que não se conquista lutando contra carne ou sangue, que se permite a maldade de quem deseja matar Deus. Não corte a orelha de quem me prende, mas, tente testemunhar a verdade do Reino que não é deste mundo.
As perguntas sobre a verdade, o caminho, a vida, Deus, amor, liberdade, eternidade e etc, são perguntas para as quais temos a resposta: Jesus. O fundamental da experiência com essa "resposta" é entendermos que ela não é um som ou sinais escritos, mas, uma pessoa, carne, gente. É material, usual, funcional. Pão que se come, água e vinho que se bebe. Jesus é uma experiência de vida, experiência verdadeira de Fé. Assim sendo, a pergunta que faz sentido para essa experiência é: "o que faremos com o Cristo?", "devemos crucificar nosso rei?". Nossa experiência é do Cristo vivo, e vivo não procura uma boa resposta, mas, vive aquilo que crê ser uma boa pergunta.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Esquecimento...
É muito comum falarmos sobre "natureza humana" ou "essência humana", "aquilo que nos faz seres humanos". Procuramos uma característica que seja extremamente específica de "humanidade" e, ao mesmo tempo, que faça parte de "todos os seres humanos". O problema de definir uma característica de "natureza" ou "essência" humana é que se escapar a alguém essa característica específica, esse alguém não será considerado humano. Assim acontece com a relação entre povos que se odeiam, etnias, racismo, machismo, disputas de gênero, sexualidade, escravidão e aí por diante. Se não há correspondência entre pessoa e característica da "essência humana", uma pessoa deixa de ser "humana".
Sem levar em consideração a própria tentativa de se definir "humano", pragmaticamente e com muito sentido, a possibilidade que minimizaria problemas de generalizações seria o abandono da tentativa de encontrar a "natureza humana". Apesar de abrir mão dessa busca, farei pretendo propor uma metáfora, quem sabe um mito, sobre a "essência humana". Nessa minha tentativa de criar uma metáfora ou mito de qual seria a natureza humana, eu afirmaria, ou melhor, afirmo: o que me fez humano é a capacidade de "esquecer"...
Diferente de máquinas, sou capaz de esquecer, perder a memória, alterar as recordações, misturar informações. Me esqueço. Não sofro de uma "perda de memória" recente ou coisa do tipo, realmente esqueço e sou capaz de esquecer. Esqueço que mulheres não tem caudas no lugar de pernas, esqueço que é absurdo um cavalo voar ou um peixe virar gente em noites de lua cheia. Esqueço até de minha habilidade de esquecer! Esqueço que não sou super-poderoso e esqueço que não sou fracote. Esqueço de quem é humano e quem não é. Esqueço do tempo e às vezes esqueço de esquecê-lo.
Esquecer; essa é nossa característica, aquilo que nos move. Saber que seremos esquecidos ou que somos esquecidos é angustiante, desesperador! E depois de minha morte? Esquecerei de minha vida? Esquecerão de minha vida? Não quero esquecer e nem que me esqueçam. Doenças que degeneram neurônios e perturbam o funcionamento da memória são o extremo dessa angústia - são a História humana encarnada: a vida construída por esquecidos.
A perfeição de nossos instrumentos, nossas máquinas, nossas crenças, religiões, filmes, trabalhos, exercícios científicos não podem esquecer, mas, nós, podemos. Aliás, o fazemos. Esquecemos. Exatamente por esse contato com o esquecimento que dependemos de experiências de Fé, de confiança em algo que não se esquecerá de nós. "Deus não se esqueceu de nós...", essa é uma mensagem de libertação, de salvação. Inclusive, como cristãos, nos relacionamos profundamente com o esquecimento. Jesus, o Filho de Deus, a experiência de que Ele não se esqueceu de sua Criação, que participa de sua História construída pelos esquecidos. "Fazei isso em memória de mim": não deixem a Mensagem de esperança na eterna lembrança de Deus morrer. Até podemos matar o Filho de Deus e nos esquecermos disso, mas, Ele, não se esquece de Suas promessas, é fiel. Então, somos convidados a sermos fiéis também: tentarmos romper com uma humanidade qualquer e experimentarmos algo divino, o não esquecimento...
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