quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Igreja do Diabo (Adaptação do conto de Machado de Assis)

Certo dia, percebendo que os tempos na humanidade eram outros, os homens tornavam-se cada dia mais céticos, suas histórias perdiam força, seu nome era motivo de chacota, competia-lhe zilhões de apelidos, carregava culpas que não lhe diziam respeito, por toda a história tivera um papel coadjuvante, sofria de demasiada desorganização e as seitas que levavam sua graça nada tinham a ver consigo, o Diabo recebeu uma revelação de seu espírito: "Vou construir uma igreja!". Agora, falando em voz alta para que seus súditos acompanhassem seu novo plano, o Diabo disse:

- Que sacada! Puta idéia fera! Travarei a batalha entre minha Bíblia Endiabrada e a Bíblia Sagrada, serei meu próprio profeta. A palavra de fato será a "Palavra do Diabo", já que falo por mim mesmo. Sem regras, dogmas, ritos e liturgias. Apenas marketing, propagandas, shows e confusão. E enquanto as outras religiões brigam entre si em busca de fiéis, a minha será única e abrangerá a todos. Há muitos modos de afirmar, mas só um de negar tudo.

Dito isto, o Diabo tomou o elevador e subiu até o andar celestial. Foi contar a novidade e desafiar o Ser Supremo. Enquanto ouvia a lira e as harpas que compunham a melodia que saia da caixinha de som do elevador, sua mente não parava de trabalhar:

- Tratarei logo de criar um mantra eletrônico e barulhento que repita bastante meus conceitos e valores sem sentido. Que foda.

Deus recebia um novo membro do Reino dos Céus no instante em que a porta metálica se abriu entre as nuvens, o sininho soou e o Diabo de braços abertos e um semblante cínico e assombrado, acompanhado de um sorriso maroto cheio de graça, disse:

- Fala Deus! Fala Deus!

- Que queres teimoso? respondeu o Todo Poderoso.

- O Senhor já ouviu falar de teu servo Jó? disse o Diabo dando leves risos.

- Brincadeira, brincadeira... era só para relembrar velhos tempos. continuou.

- Não vês que vossos gracejos e sarcasmos de nada valem aqui? respondeu o Senhor.

- Desculpe-me aparecer em hora não muito oportuna, já que estás recebendo o último dos homens que entrará nesta terra... ou melhor, neste Céu.

Com o semblante enfadonho e com o ar de "lá vem", Deus suspirou.

- Explica-te.

- Bom, não vai demorar muito para os céus ficarem vazios por causa do caminho, que é esburacado e mal sinalizado. Mas eu, em contra partida, agora construirei um novíssima rodovia, lisinha, tranquila, de fácil acesso e muito bem divulgada. E resumo isso em 3 palavras: construirei uma igreja. Vim te avisar e abrir o jogo para que não diga que estou trapaceando. É uma boa idéia vai?

- Vieste dizê-la, não legitima-la. advertiu o Senhor.

- Claro. Mas como o Senhor é amoroso e compreensível e tal... Eu vou para a terra e construir a minha Igreja.

- Vai. respondeu o Senhor.

- Quer que eu te avise quando terminar a obra?

- Não, pode ir já.

- Bom, eu não vou depois consolar-te pela derrota.

- Vai Diabo, vai.

Entendendo que o próximo passo do Divino seria expulsá-lo (provavelmente pela segunda vez) do Paraíso, o Diabo pôs-se acelerado para o elevador e dirigiu-se a terra.

Vestido de terno e gravata, em um púpto na forma de um troféu, o Diabo não temeu em assumir sua própria graça e pregar aos homens.

- Sim! Sou o Diabo. Mas fui apresentado a vós de maneira enganosa. Não sou aquele que puxa o pé da criança que não obedece. Não ando na calada da noite a espreita de uma alma culpada e muito menos sou o referente àqueles nomes que ganhei; tinhoso, pé preto, coisa ruim, Satã, chifrudo, coisudo, sombrio, Príncipe das Trevas, Pai da Mentira. Sou quem vos libertou do jugo de escravidão. Dei-lhes opções de escolherem o que quisessem. Livrei-os da monótona vida dependente das regras divinas e ajudei-os a ficarem em pé de igualdade, capazes de decidir por si próprios. Pois agora mostro a vocês o verdadeiro caminho, a religião que trará prosperidade, vida abundante, muito bem aproveitada e vencedora.

Prometia poder, conta bancária próspera, incentivava a ganância, luxúria, inveja e tudo o mais que aguçava o imediatismo humano. Invertia todos os valores. O próximo que seria amado, seria o próximo da fila nos relacionamentos sexuais ou financeiros (na verdade negociantes golpistas que derrubavam um ao outro de maneira igual). A indiferença reinava. Cada um por si, o Diabo com todos. Falava bem, montava shows, workshops, programas de rádio e televisão, só havia suas pregações na internet.

O plano diabólico deu certo. Em poucos anos todas as religiões extinguiram-se. Só existia a Igreja do Diabo. Sua liturgia da negação e dogmas do individualismo imperaram. Sua Bíblia a mais vendida, traduzida a todos os idiomas e seu nome não havia mais quem não conhecesse. A obra estava completa, concretizada e perfeita.

Mas, de andar e rodear a terra, uma descoberta assombrou o Diabo. O mal começou a ganhar espaço em sua religião. Encontrou ele um dia um homem famoso por ser glutão, às escondidas, reservando alguns sábados para jejum. Surpreendido rodou um pouco mais e viu um banqueiro tradicionalmente avarento elevando o salário de seus funcionários sem que ninguém soubesse. Um conhecido mão-leve de jogos de azar e baralho não apenas não roubando, como também devolvendo na calada da noite, sem criar alardes e chamar atenção, em dobro a quantia que roubara de outros. Descobriu céticos rezando em silêncio em seus quartos, prostitutas casando-se de maneira legal e mantendo-se fiéis a seus cônjujes e traficantes criando clínicas secretas.

O Diabo ficou estupefato. Espantado e abismado não sabia onde descansar os pés e repousar a cabeça. Indignara-se. Que se passa? Como isso é possível? Sem muitas opções, correu para o céu descobrir o que estava acontecendo e tirar algumas supostas satisfações.

Deus regava o Jardim Celeste quando o Diabo apareceu e disse:

- Que porra é essa? O que se passa? O que você fez?

Sem ar de superioridade, arrogância, mas, pelo contrário, cheio de complacência e doçura nos olhos, Deus não o interrompeu, não o repreendeu e muito menos triunfou. Apenas disse:

- Nada. Essa é a eterna e indecifrável contradição humana.

3 comentários:

  1. OI BRUNO EU FIZ UMA ADAPTAÇÃO DESSE TEXTO PARA UMA PEÇA DE TEATRO, MAS NUNCA CONSEGUIR TIRAR DO PAPEL.

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  2. HA SÓ QUE NÃO NESSA VERSÃO, QUEM ATUALIZOU??

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