segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Odisséia - Resenha Filosófica (Trabalho para a faculdade)

Livre para ser em devir frente a aleatoriedade

A Odisséia de Homero conta a história de Odisseu, o rei de Ítaca, que participara durante dez anos da guerra de Tróia e agora retornava para casa. Entretanto, este regresso não seria tão simples; Ítaca já não era mais a mesma, sua mulher Penélope não era mais a mesma, seu filho Telémaco já não era mais o mesmo, e inclusive Odisseu já não era mais o mesmo, aliás, ele mesmo buscava descobrir quem era. Os muitos anos distante desfiguraram-no e bagunçaram sua casa. Ítaca agora não tem um rei, Telémaco não tem consigo o pai e Penélope está acompanhada por pretendentes que desejam desposá-la por considerarem o marido desaparecido, que tenta redescobrir-se, como morto.

O retorno conturbado para casa sofreria intenperes e resistência dos deuses. Poseidon setir-se-ia afrontado e perseguiria Odisseu. Calipso aprisionaria Odisseu em sua ilha, Zeus destroçaria seu barco por causa de uma desonra cometida pelos homens de Odisseu aos gados de Apolo. O homem tenta encontrar-se, busca voltar àquilo que já foi. O homem em busca de ser homem, descobrir o que é ser homem, mas sofre na caminhada as interferências deste divino. Afinal, o que são estes deuses? Se este homem sofre dos destinos e nas mãos dos deuses, os incontroláveis deuses, como será que é livre? Qual liberdade, se é que existe, que este homem possui frente a este incontrolável? Como este homem descobre-se livre?

Independentemente dos desejos de Odisseu, de suas práticas, seus sonhos, metas e planos, quaisquer decisões tornar-se-iam ineficazes caso um deus decidisse intervir em sua vida. Para escapar de tal interferência, dependeria do consentimento e intervenção de outro deus. Logo, este homem está solto e rendido à aleatoriedade, não é capaz de controlá-la. Vive em um “salto de fé”, como diz Kierkegaard em seu livro “Temor e Tremor”, no qual apresenta a vida de um homem como se este estivesse suspenso sobre um fio, atravessando um abismo em completa escuridão e sempre arriscando o próximo passo, já que não enxerga a continuidade do fio.

Odisseu nunca pôde decidir o de “onde viria” e talvez jamais alcançasse o cumprimento de seu anseio do “para onde iria”. Seu destino é traçado, transformado e retraçado pelos seres divinos. Sua viagem é aleatória, não é boa nem ruim, triste ou alegre, do bem ou do mal, simplesmente é um percurso, é vida. Nesta aleatoriedade cabe então uma moral extremamente conveniente, que ora para o homem viajante situações iguais serão boas, ora más. Em detrimento deste aleatório chamado divino, gera-se então esta moral conveniente, jogada na conta de deuses, os inexplicáveis deuses.

Com a formação, delimitação e definição desta moral que a ele convém, o homem forja-se e procura formar, delimitar e definir aquilo que ele mesmo é. Face aos acontecimentos e desastres de sua jornada, Odisseu toma decisões e faz escolhas que resultarão, em sua somatória, aquilo que ele é: sua memória. Estas memórias, que em sua moral conveniente serão assistidas como boas ou más dependendo do que melhor convir, farão de Odisseu aquilo que ele é. Logo, a possibilidade de liberdade que o homem tem é de construir sua moral conveniente frente a aleatoriedade. O decidir como encarar sua jornada, como guardá-la em sua memória e como lembrá-la, então, decidir quem é. A liberdade de Odisseu não está em decidir o de onde vir ou o para onde ir, mas sim, no “quem ser”.

O homem não tem controle sobre sua viagem, mas tem controle daquilo que pode ser em sua viagem. Nisto surge outra questão: sua moral é tão conveniente que transforma-se sempre e a todo instante, nunca cristaliza-se. Claro, se esta moral cristalizar-se, não será uma moral conveniente, que adequa-se as vontades e ao percurso percorrido daquele que a rege, mas sim uma moral estática, absoluta e não participante da aleatoriedade. Logo, esta moral não participa da vida que se apresenta. A moral estática não trata da existência do ser, da liberdade do ser, mas do “não-ser do ser”, da morte ou aprisionamento do ser. Se este ser parar de transformar-se, ser em constante devir, para tentar consolidar o que é, na verdade perde o seu ser, morre, deixa de existir. Quando Odisseu vai ao Hades, fica perceptível uma diferença entre o mundo dos vivos e dos mortos na dinâmica de um e na inércia de outro. Enquanto entre os vivos as memórias se constroem, entre os mortos elas mantém-se sempre as mesmas, nostálgicas e eternamente estáticas.

Odisseu é livre para decidir quem ser ao enfrentar a aleatoriedade e confrontar-se com o incontrolável (viver a vida), mas seu ser nunca é. Este homem nunca pode viver estático, sua existência não se dá sempre igual, mas, pelo contrário, como tudo a sua volta muda e é aleatório, sua existência da mesma maneira tem que ser dinâmica. A vida sempre em devir, Odisseu sempre em devir. Sua existência, sua moral conveniente, sua liberdade, sua memória e aquilo que ele é nunca sendo, mas sempre em devir. Frente a aleatoriedade da vida o homem não é, mas descobre-se livre por poder escolher quem ser neste sempre devir.

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